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Opinião

quinta, 11 de junho de 2009
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O milagre da multiplicação do PAC

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Um fenômeno político sem precedentes está em curso no Ceará e consiste na aceitação pública do engodo como meio legítimo e até honrado de fazer política, sem que isso cause escândalo ou reação. Quando uma sociedade abdica do ensinamento de São Tomé e passa a acreditar em tudo o que se anuncia sem nunca cobrar provas, é sinal que o ambiente geral degenerou, propiciando que discursos, promessas, mentiras e devaneios substituam a própria realidade.

Assim é que, sem mais nem menos, autoridades municipais, estaduais e federais, se sintam confortáveis para anunciar o que bem quiserem, livres do inconveniente de terem de prestar contas a quem quer que seja. Alguns opositores e críticos na imprensa chegam a esboçar murmúrios de lamento, mas disso não passa e tudo se acomoda nas facilidades e conveniências do adesismo. Hoje em dia, as unanimidades não são apenas burras, são, principalmente, suspeitas.

Exemplos não faltam. O governador Cid Gomes esteve em Brasília na semana para apresentar o andamento das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Ceará. Na ocasião, segundo informa o site do Governo do Estado, Lula reiterou o compromisso de concretizar as obras da Siderúrgica e da Refinaria. Um deboche. Trata-se das mesmíssimas promessas feitas em 2007, quando o presidente esteve em Fortaleza, e que nunca saíram do papel. Se cumprir a palavra empenha, será um marco na engenharia mundial, uma vez que falta um ano e meio para o fim de seu segundo mandato.

Demonstrando que não precisa se preocupar com apurações mais cuidadosas, o governador assim resumiu o encontro: “Avaliamos que o andamento das obras do PAC no Estado está bom. Ter 20% dos recursos empenhados significa muito, pois as obras são grandes e importantes para o Ceará”.

Nos dias seguintes, as manchetes do noticiário, como sempre, foram generosas, exibindo novas promessas de investimentos bilionários. Mas o fato evidente, claro e límpido, é que 20% de recursos empenhados significam, na prática, muito pouco. Trata-se de um média de 10% ao ano. Significa dizer que no ritmo que Cid e Lula consideram positivo, serão necessários mais oito anos para finalizar o empenho desses recursos. Imaginem então licitar, liquidar e finalmente, pagar pelo que foi construído.

Mas, no momento em que as evidências de que o alardeado programa de “aceleração” na verdade se arrasta lentamente correm o risco de serem percebidas até mesmo pelo mais ingênuo dos eleitores, o governo prontamente resolve agir e... promete mais investimentos milionários. Agora é o PAC da Drenagem, que de acordo com o site da Prefeitura de Fortaleza, prevê “recursos da ordem de R$ 93 milhões destinados à ampliação do sistema de drenagem urbana”. Lula já sinalizou com o PAC da Copa. De PAC em PAC, a falácia prospera e nada muda. Só não vê quem não quer.

Wanderley Filho
Historiador



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