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Opinião

quinta, 06 de agosto de 2009
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Nosso herói importado

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“Pobre do país que precisa de heróis”, dizia Bertold Brecht, o dramaturgo oficial da extinta Alemanha Oriental, mas que no Brasil virou símbolo do humanismo socialista. Assim como Karl Marx, Brecht amava o povo, desde que se concordasse com ele. Para o resto, um bom pelotão de fuzilamento bastaria. Eis o humanismo dessa gente.
Sendo assim, o correto então é dizer: feliz o país que possui heróis. Mas heróis genuínos, forjados pela combinação de coragem para enfrentar as adversidades vividas por seus compatriotas e a consciência cívica no cumprimento dos deveres humanitários.

Na ausência dessas figuras capazes de representar a identidade e o espírito de um povo, o negócio é apelar para personagens de menor estatura e elevá-los a uma condição maior. Assim é que um país, ao viver crises profundas, mas carente de pessoas que possam servir de referência para atravessar o período conturbado, acaba confundindo ídolos com heróis. Erro semelhante ao de imaginar que paixão é amor.

No Brasil, esse fenômeno tem uma característica bem acentuada. É que nas últimas décadas, temos feito de esportistas heróis nacionais. O mais novo é o nadador César Cielo, o fenomenal campeão olímpico que na semana passada quebrou o recorde mundial dos 100 metros, em Roma.

Evidentemente ele possui qualidades que servem de exemplo não só aos brasileiros, mas a todos, sem distinção de nacionalidade. Mas herói? Isso é um exagero. Bem vista a trajetória de Cielo, podemos notar que ele é antes uma amostra cruel de como o Brasil abandona os seus jovens talentos a própria sorte.

Sim. Só temos o nosso herói campeão graças a Universidade Auburn, nos Estados Unidos, que lhe pagava bolsa de 35.000 dólares anuais. Sem os americanos, não teríamos o que comemorar. É ufania local financiada pelo estrangeiro; uma espécie de nacionalismo importado. Antes disso, em 2008, o próprio Cielo revelou, quando todos comemoravam sua conquista em Pequim: “De 2006 até antes do Pan do Rio, tudo foi bancado pelo meu pai, puro ‘paitrocínio’.”

Todos nós temos um pouco de César Cielo, com a diferença de que vivemos no anonimato. Homens e mulheres trabalham arduamente para construir e manter o Brasil, submetidos a uma carga de impostos indecente, para depois serem solenemente ignorados, enquanto políticos posam de benfeitores desinteressados. Adaptando Brecht, só resta concluir: pobre do país que precisa de outro país para ter heróis.

Wanderley Filho
Historiador



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