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Campanella faz homenagem sarcástica ao cinema em novo filme

quarta-feira, 15 de maio 2019

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Dez anos depois de dirigir “O Segredo de Seus Olhos”, o segundo filme argentino na história do cinema a ganhar um Oscar de melhor película estrangeira (o primeiro foi “A História Oficial”, de Luis Puenzo, em 1986), o diretor Juan José Campanella, 59, lança “A Grande Dama do Cinema”, que estreia nesta quinta-feira (16) no Brasil.

O filme é uma homenagem a essa arte, ao mesmo tempo que oferece uma visão sarcástica sobre como envelhecem artistas, produtores, cineastas e roteiristas.

“Há um jogo durante todo o filme. Os personagens vão se colocando no papel de vilões, de vítimas, de antagonistas, até armarem a cena final, que é toda planejada e com suspense, como se faz no cinema”, diz Campanella, em entrevista à Folha de S.Paulo, em Buenos Aires.

Divulgação

“Também há uma sucessão de gêneros que surgem ao longo da história, suspense, drama, comédia e tragédia. E, claro, como gosto de fazer nos meus filmes, há sempre uma história de amor que atravessa muitas décadas e que ganha importância ao longo da trama.”

Campanella se refere aos romances que ocorrem durante longos períodos da vida dos personagens e que também estão em seus outros filmes, como “O Mesmo Amor, A Mesma Chuva” (1999), “O Filho da Noiva” (2001) e o próprio “O Segredo de Seus Olhos” (2009).

Agora, a história se desenvolve numa linda casa de campo no interior do país, one vivem isolados uma atriz veterana, interpretada por Graciela Borges -também uma das veteranas mais destacadas do cinema argentino-, e homens que trabalharam com ela. Seu marido (Luis Brandoni), um ex-roteirista (Marcos Mundstock) e um de seus diretores (Oscar Martinez, protagonista de “O Cidadão Ilustre”).

“Graciela é o coração do filme por ser uma atriz dramática de talento único e que tem um talento para a comédia que é fantástico, em termos de timing, de expressões, sai de uma forma muito natural para ela”, conta Campanella.

Pois os quatro vivem neste casarão isolado do mundo, onde se provocam, às vezes se odeiam, revivem antigas intrigas e se alimentam das lembranças do tempo em que estavam no cinema, nos anos 1960-1970. Até que essa bolha em que convivem como uma família disfuncional recebe a visita de dois jovens ambiciosos e, como se notará de forma muito clara e muito cedo, oportunistas interpretados por Nicolás Francella e Clara Lago.

O filme é um remake de uma obra que Campanella adora e que, lançada apenas duas semanas antes do golpe militar de 1976 que implementou a mais recente ditadura argentina (1976-1983), acabou sendo proibida, “Los Muchachos de Antes no Usaban Arsénico”, de José Martínez Suárez.

“Por muito tempo eu quis fazer uma refilmagem desse filme, adaptando para os tempos atuais. Desde os anos 1990 trabalho nesse roteiro. O que me impressiona é que estafadores como o casal que aparece no filme continue sendo um tema atual que atravessa essas décadas todas na Argentina”.

Pois o casal de jovens ambiciosos se mostra interessado em comprar a casa e em relançar Mara Ordaz (Graciela Borges) de volta às telas. No começo, ela se ilude com a proposta, enquanto os outros três se sentem traídos, humilhados e passam primeiro a se enfrentar, depois a tramar uma resposta contundente ao casal.

Nesse jogo, os personagens vão deixando cair as diversas roupagens de rancores, cinismos e pequenos ódios que foram carregando e acumulando entre si por muitos anos, enquanto ressurge o amor também entre Mara e o marido. Também vão se revelando segredos entre eles enterrados por muito tempo”, conta Campanella. Estes segredos, contados também em tom tragicômico, misturam amor, traição e mortes misteriosas.

Para o diretor, a ideia de retratar o “ambiente do cinema” se mostrou atemporal. “Eu tive essa ideia quando vi o filme original, de 1976, e quis transpor a trama pela primeira vez na década de 1990, e finalmente concluo isso agora, em 2019. E o mais notável é que as pessoas que vivem do cinema mudam muito pouco. É claro que se formam em contextos diferentes, mas o modo como se relacionam, como crescem as vaidades, como se alimentam as rivalidades, como se insere dentro deles a ideia de ler a própria vida e sua decadência numa chave cinematográfica é mais ou menos o mesmo”, diz Campanella.

E acrescenta: “Creio que é meu filme menos argentino, porque em todos os países as pessoas que vivem do cinema, vivem e envelhecem de modo muito parecido”.

O diretor, que passou temporadas nos Estados Unidos dirigindo minisséries, está agora dedicado em tempo integral à Argentina. Está construindo um teatro no centro de Buenos Aires e dirigindo obras, com a pretensão de seguir fazendo filmes em seu próprio país.

“A passagem pelos EUA foi para aprender um pouco, ter uma experiência diferente, mas meu centro artístico, onde quero que minha obra seja realizada e conhecida, é aqui”, diz.

Campanella também participa muito, via redes sociais, dos debates políticos do país. E, diferentemente da comunidade cinematográfica local, em sua maioria apoiadora do kirchnerismo (dos governos de Néstor e Cristina Kirchner), que foi muito generoso com as artes, ainda que a um custo alto para a economia, Campanella é um apoiador do governo do atual presidente, Mauricio Macri.

Ainda em tempos de crise econômica, como o atual, crê que “houve avanços em termos de liberdade de expressão e, pela primeira vez, se discutiu abertamente uma lei de aborto no parlamento (que acabou sendo rejeitada).

“Também creio que há nos quadros do Cambiemos [aliança governista] outras opções de esperança para um bom futuro político para a Argentina”, diz Campanella, que também faz questão de ser mesário em todas as eleições e o fará no pleito presidencial de outubro deste ano.

Atualizado por Jorge Alves
jorgelbalves@gmail.com
Fonte: Folhaprees

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