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CINEMA CEARENSE – Orson Welles

quinta-feira, 05 de julho 2012

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 NATALÍCIO BARROSO
Da Redação

1941 foi um ano heroico para os jangadeiros do Ceará. Foi neste ano que quatro pescadores, Manuel Olímpio Meira, mais conhecido como Jacaré, Mestre Jerônimo, Raimundo Correia Lima, também chamado de Tatá, e Manuel Preto deram início a uma aventura que começou em Fortaleza e terminou no Rio de Janeiro. Os quatro, atendendo a uma ideia de Jacaré, subiram em uma jangada na Praia de Iracema e foram parar na Baía de Guanabara. A intenção dos pescadores era a de chamar a atenção do País e do Governo para a situação difícil pela qual passavam, já que não tinham a sua profissão reconhecida nem podiam ser os donos de suas próprias jangadas.

Costeando o litoral cearense, de início, os quatro pescadores foram enfrentando o sol, a chuva e os ventos se aproximando do Rio de Janeiro. Para isso, porém, tiveram que passar sessenta e um dias em alto mar para, finalmente, despontar na Baía de Guanabara e serem recebidos pelo presidente da República, Getúlio Vargas. As reivindicações dos quatro pescadores foram atendidas. Na prática, porém, a lei que foi promulgada tratando do assunto, não foi respeitada.

ORSON WELLES
Um dos grandes trunfos conquistados pelos pescadores com essa viagem, no entanto, foi o interesse que Orson Welles, um cineasta norte-americano que havia abalado o mundo com uma transmissão de rádio sobre uma suposta invasão extraterrestre e o cinema com o Cidadão Kane, teve para com eles. Como o Brasil não sabia que lado haveria de seguir durante a Segunda Guerra Mundial, Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, resolveu promover uma política de boa vizinhança com o objetivo de convencer o governo brasileiro a ficar do lado dos aliados. Foi assim que surgiu o Birô Interamericano dirigido pelo magnata Nelson Rockfeler que deu início a um intercâmbio cultural no qual artistas norte-americanos vinham para o Brasil e artistas brasileiros iam para os Estados Unidos. Convidando Orson Welles para filmar cenas genuinamente brasileiras, portanto, a intenção do Birô era a de propagandear o que havia de bom ou de exótico no Brasil e não os seus dramas sociais. A intenção de Orson Welles, no entanto, era outra: mostrar as favelas do Rio de Janeiro, as contradições sociais e, por fim, a luta dos pescadores por direitos ainda hoje pouco reconhecidos…

CONFRONTO E MORTE
Entrando em confronto com os interesses norte-americanos, portanto, que não aceitavam mais as filmagens reveladoras de um país cheio de mazelas que incomodava, principalmente, o governo de Getúlio Vargas, Orson Welles, mesmo assim continuou com seu trabalho. Como havia visto uma reportagem na revista Times, na qual quatro pescadores cearenses haviam saído de jangada e percorrido mil e quinhentas milhas náuticas, ficou empolgado com a epopeia e resolveu registrar a façanha.

Foi assim que, no dia 8 de março de 1942, há setenta anos, portanto, Orson Welles pisou, pela primeira vez no Ceará e levou, para o Rio, os quatro pescadores que, em 1941, tinham viajado de Fortaleza para a então capital do País. A intenção de Welles era a de filmar a chegada apoteótica dos quatro jangadeiros em Botafogo.

A filmagem foi feita. Depois de várias tomadas, Jacaré, justamente aquele que havia idealizado e executado a viagem, morreu depois que a jangada na qual se encontrava, virou. Orson Welles, nesse mesmo dia, perdeu o apoio do Birô Interamericano. Mas não perdeu o interesse pela história nem pelo Ceará. Continuando a filmagem dos pescadores nordestinos, voltou a Fortaleza e aqui fez o filme que ainda hoje pode ser visto em preto e branco. As personagens que participam do filme são pescadores que, ao lado de suas mulheres e filhos, constroem jangadas de forma ainda rudimentar e se jogam nos “verdes mares bravios” tal como são descritos por Juvenal Galeno em muitos de seus poemas. As mulheres, enquanto isso, fazem rendas acompanhadas pelas filhas. A paisagem, por sua vez, para quem conhece o Mucuripe hoje, é deserta e cheia de coqueiros agitados permanentemente por ventos violentos…

Muitos foram os filmes do autor de Cidadão Kane, produzidos na década de quarenta, no Brasil, que foram jogados fora. Há quem diga que foram atirados ao mar pelo Estado Novo. A produção cearense, no entanto, está intacta e contém, aproximadamente, quarenta minutos de um trabalho que foi feito por um homem que, enquanto filmava, dormia em uma cabana rústica de pescador, comia feijão com arroz, como todo mundo, e só dormia de madrugada, um pouco antes do sol nascer, depois de ler e escrever quase até a exaustão…

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