sábado, 15 de dezembro de 2018.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

"você jamais será livre sem uma imprensa livre." - Venelouis Xavier Pereira

Entrevista – “Lenda” do forró está de volta

quinta-feira, 31 de janeiro 2013

Imprimir texto A- A+

DIVULGAÇÃO

“A revolução do forró – Empresário transforma a velha música dos sanfoneiros num negócio milionário e exporta o novo som para todo o Brasil” – essa era a manchete da reportagem da revista Época de alguns anos atrás. O nome dele é Emanuel Gurgel, um fenômeno empreendedor do Ceará. Depois de Luiz Gonzaga, foi ele o responsável pelo retorno do forró às rádios do país a partir do fim dos anos 90, com a criação de sua rede de rádio via satélite, a SomZoom Sat. Emanuel lançou alguns artistas de sucesso, como Frank Aguiar, o comediante Mução e bandas que existem durante décadas, como a sua Mastruz com Leite,que puxou o sucesso de diversos outros grupos de forró da Terra do Sol, fez carreira internacional, e atrai públicos numerosos em seus shows até hoje. Emanuel é diversificado: já foi dono de confecção, juiz de futebol , presidente do Ceará Futebol Clube, professor de educação física, e hoje, além de cuidar de suas fazendas e manter 26 emissoras de rádio (a rede SomZoom chegou a ter 92 emissoras em 15 estados), e continuar produzindo forró com diversas bandas, dando oportunidades para novos cantores e compositores, o empresário investe em energia renovável e preservação do meio ambiente. Ele está domindando o mercado de venda de madeira reciclada para fornos de pizzarias, tinturarias, padarias. Em entrevista para o editor de cultura do Jornal O Estado, Felipe Muniz Palhano, essa lenda do forró, Emanuel Gurgel, fala sobre seus novos negócios, critica o forró feito atualmente, comenta sobre pirataria e faz um balanço de uma carreira de feitos – ações de uma personalida de única de nosso Estado. Confira.

[O ESTADO] Como foi construir um “império do forró” – depois de Luiz Gonzaga, você foi responsável pela popularização do gênero em todo o Brasil, através de bandas como Mastruz com Leite, e com sua SomZoom Sat, a primeira rede de rádio via satélite que se expandiu para todo país. Mas você começou como juiz de futebol. Como foi a aproximação com a música?
[EMANUEL GURGEL] Passei por várias fases. Fui árbitro de futebol, professor de educação física, dono de confecção… o mundo é uma bola girando, e você vai se adaptando.  Hoje estou montando um novo negócio no Ceará chamado “briquete”. É uma lenha ecológica que vai estourar no mundo todo.

[O E.] Como funciona esse briquete?
[E. G.] É uma lenha para pizzaria, tinturaria, padaria. A poda de Fortaleza era antigamente jogada no lixo.  E hoje as podas das árvores feitas pela Coelce e pela Prefeitura em toda Fortaleza são reaproveitadas, vira briquete, serve para ser queimada, poupando nossas matas.

[O E.] Onde você conheceu essa técnica?
[E. G.] No Ceará nós somos pioneiros, esse é um conceito americano.  O briquete foi desenvolvido pelos americanos no “tempo do vapor”. As madeiras armazenadas ocupavam o espaço das cargas nos navios. O objetivo do briquete era prensar a madeira e aumentar o poder de concentração do fogo, ocupando menos espaço nos navios a vapor.

[O E.] E já existem muitos restaurantes e empresas que compram esse seu briquete?
[E. G.] Hoje 80% das pizzarias de Fortaleza, das padarias e algumas tinturarias são clientes do briquete. Ocupa menos espaço, é higiênico, vai ensacado, tudo no peso, tudo controlado, tem isenção de SEMACE (Secretaria do Meio Ambiente do Ceará) e IBAMA e do Certificado de Origem Florestal, pois é material reciclado.

[O E.] Depois de Luiz Gonzaga, você foi responsável pela popularização do forró no Brasil, exportando bandas como Aquarius, Cavalo de Pau, Rabo de Saia e Mastruz com Leite, do Ceará para o mundo. Foi um dos maiores vendedores de CDs, e contruiu um império, mas depois da pirataria, se afastou. Agora você está de volta ao mundo da música – o que está achando do forró feito atualmente?
[E. G.] Hoje as letras estão muito pobres. Existem uns quatro temas nos forrós da atualidade: bebe uísque, carro, rapariga, piscina…  carro de som…. são os motes. O romantismo no forró não existe mais. Durante cinco anos eu me afastei porque todos os pais esperam falecer para os filhos assumirem. Eu queria treinar meus filhos em vida, para que eu pudesse trabalhar assessorando eles. Isso já acabou, com cinco anos, eles estão prontos para a vida.

[O E.] E como está atualmente a Rede SomZoom Sat? Suas emissoras de rádio transmitem para o interior do Ceará e outros estados – são quantas rádios?
[E. G.] Estamos no interior do Ceará, parte do Brasil e na internet, 24 horas. Temos 26 emissoras, no Piauí, Pernambuco, Goiás, Pará… A programação é feita com duas horas de notícias, e cada sede tem sua notícia regional. Tocamos todos os sucessos nacionais e internacionais, os temas de novelas, e os forrós nossos, de trabalho.

[O E.] Atualmente, quais as bandas mais atuantes do seu casting?
[E. G.] Mastruz com Leite, Cavalo de Pau, Catuaba com Amendoim, Mel com Terra e Rabo de Saia. Estamos trabalhando com essas cinco bandas. Agregados a nós temos o Limão com Mel e a banda Magníficos. Fazemos um evento agora chamado “Forró das Antigas”. Esse show está rodando o Brasil todo. Toda semana fazemos uma cidade diferente. No carnaval já estamos fechados com Maranhão, no interior da Paraíba e em Pernambuco.

[O E.] Você já lançou nomes do forró como Frank Aguiar. De todas as bandas e artistas, qual seu maior sucesso?
[E. G.] Acho que foi a Mastruz com Leite, a “mãe” de todas as bandas. É a mais antiga, a que fez mais sucesso. A Mastruz tem 45 discos e está gravando o 46o. A banda vendeu aproximadamente cinco milhões de cópias.

[O E.] O seu afastamento do meio musical se deve à pirataria? Como você analisa hoje a facilidade da tecnologia em se baixar uma música sem custo algum?
[E. G.] Na realidade hoje o mercado de CDs e DVDs desapareceu, todas as empresas, gravadoras multinacionais, se afastaram do mercado brasileiro, pois hoje a pirataria é que manda em tudo. A pirataria manda no tênis, na camisa, no CD, no óculos, no remédio… falsificam tudo hoje.

[O E.] Emanuel, você que foi juiz de futebol, já foi presidente do time do Ceará, o que espera do Brasil na Copa?
[E. G.] Eu discordo do preço dos ingressos da Copa. Uma pessoa que ganha um salário mínimo de aproximadamente 300 dólares, não terá condição de pagar 100 dólares em um jogo de futebol. Acho que o povo não vai ter condições de ver os jogos da Copa. A prova foi agora na reinauguração do Castelão: o estádio com capacidade para 65 mil pessoas, com um jogo de abertura com os quatro maiores times do nordeste, a renda foi de apenas 32 mil pagantes. Então você imagina um jogo aqui de Arábia Saudita contra Zâmbia: quem é que vai ver isso? Não vai dar ninguém no estádio.

[O E.] E como você analisa a situação do seu time, o Ceará?
[E. G.] O Ceará comete o mesmo erro há anos. Quando eu trabalhei lá, eu defendia que deveria haver investimento para os atletas locais. O atleta local tem que prestar conta com o vizinho dele, ele vai na mercearia e todo mundo conhece ele, vai no supermercado e alguém diz: “Rapaz, você perdeu aquele gol…”. O atleta de fora, quando termina o campeonato ele vai embora e não dá satisfação a ninguém.

[O E.] Tem vontade de se envolver com futebol de novo, Emanuel?
[E. G.] Não, o futebol para mim é um negócio muito difícil. Faz quinze anos que eu não vou a um estádio.

[O E.] Você que é um dos grandes empreendedores do Ceará, quais seus projetos para 2013?
[E. G.] A primeira “marmota” vai ser trazer o Caçarola de volta. É um palhaço que trabalhou muito tempo com a gente, e agora ele está gravando umas paródias. Esse ano estamos lançando o Mastruz da Sorte, um título de capitalização que já está funcionando em Baturité, na Região do Maciço, no Sertão Central. Lançamos também em Pacajus, no Vale do Caju e no litoral leste e o próximo passo será Sobral.

[O E.] Para finalizar, você criticou o forró que é feito atualmente. O que precisa para o gênero continuar a se popularizar sem se tornar apelativo?
[E. G.] Precisa que a Globo coloque uma música de forró que não seja tema de algo como nas duas últimas novelas. Uma música era aquela da banda Calcinha Preta, tema de uma personagem que dava psicotrópico para o marido dormir e ela trair. E na última novela, a música de Aviões do Forró era tema de uma mulher que “dava” pra todo mundo! Eles estão linkando o forró nordestino a algo depreciativo. Que coloquem uma banda de forró mostrando uma música romântica, não no sentido pejorativo. O sertanejo também teve essa mesma dificuldade.

Instagram

[instagram-feed]

Facebook

Twitter