sábado, 15 de dezembro de 2018.
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Os Outeiros e seus integrantes

segunda-feira, 19 de maio 2014

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Em 1812, ano em que o português Manuel Ignácio Sampaio, futuro Visconde de Lançada, em Portugal, começou a governar o Ceará, Fortaleza não passava de um vilarejo tortuoso e simples que acompanhava as margens do rio Pajeú. O rio que, hoje, se encontra no mesmo lugar, mas ninguém vê (exceto um trecho dele que fica por trás do prédio da atual prefeitura) terminava em um maceió, ou golfo, navegável.

Chegando ao Ceará neste período, há quem diga que o governador do estado fez, por Fortaleza, o que Nero, de certa forma, fez por Roma: encontrou uma cidade de taipa e, quando foi embora, deixou uma outra, de alvenaria. (Nero transformou Roma em uma cidade de mármore). Manuel Ignácio Sampaio, no entanto, não fez só isso. Afinal, quem deu início ao processo de urbanização da cidade de Fortaleza, foi ele quando chamou o engenheiro Silva Paulet (que hoje é nome de rua na Aldeota) para tornar direita a rua torta que acompanhava o rio Pajeú assim como a reforma do forte de Schoonenborch, que estava em decadência.

Mas não só com urbanismo e o desenvolvimento social da cidade se preocupou o coronel Ignácio que, por sinal, trouxe os correios para a capital cearense e aqui levantou a primeira alfândega. Como era um homem apaixonado por poesia, se deu ao desespero de reunir, em torno dele, poetas como José Pacheco Espinoza, Castro e Silva, Costa Barros, Manuel Correia Leal e o padre Lino José Gonçalves de Oliveira. Denominado de “Os Oiteiros” porque “oiteiro” era o nome que se dava ás festas literárias que ocorriam no pátio dos conventos no passado, este grupo tinha o hábito de se reunir na casa do governador, regularmente, e ler suas poesias para o coronel. Dentre os poemas escritos, há um deles que enaltece um chafariz.

Localizado nos fundos da casa que pertenceu ao naturalista João da Silva Feijó, que chegou em Fortaleza em 1799, o chafariz foi, durante muito tempo, símbolo do desenvolvimento urbano e humano da cidade. Assim, para enaltecer aquele prodígio, José Pacheco Espinoza escreveu o seguinte: “Esta que vês, curioso passageiro/ de cristalinas águas abundantes/ que o sítio faz ameno e lisonjeiro;// este manancial de água, o primeiro/ que fez surgir na vila arte prestante/ para a sede saciar o caminhante/ o sábio, o nobre, o rico, o jornadeiro,// edificada foi incontinenti/ no memorável, ótimo governo/ de Sampaio, varão reto, ciente…”A poesia dos Outeiros, aliás, se esmerava sempre em enaltecer o governador Sampaio ou a alguma outra autoridade a ele ligada. Mas nem por isso deixava de falar da cidade, onde todos viviam, e de seu crescimento. “Ao Aumento da Vila de Fortaleza”, outro poema de Pacheco Espinoza, é um exemplo disso. Pacheco Espinoza, aliás, foi muito mais que um simples poeta.

Natural das ilhas da Madeira, terra onde nasceu em data ignorada, veio para o Ceará em data igualmente ignorada. Aqui trabalhou com algodão e, associado com Antônio Maciel Alves fez algo que até então ninguém fizera no Ceará: levar o seu produto de Fortaleza para Portugal diretamente. Confiando, certamente, que era português, ignora a determinação que exigia que todo produto cearense passasse, primeiro, pelos portos de Pernambuco e, com isso, se tornou rico.

Poema como o de Castro e Silva, publicado no Rio de Janeiro, que começa com o seguinte verso “este obséquio, senhor, que vos envia” (o senhor aqui não é, necessariamente, o governador Sampaio) pode até não falar de Fortaleza ou do governador Sampaio, mas tem um mérito. Informa Sânzio de Azevedo em “Literatura Cearense” publicado pela Academia Cearense de Letras em 1976, que o autor demonstra algo inusitado para quem morava em regiões provincianas como o Ceará naquela época: o conhecimento da técnica do soneto ou, como ressalta o professor Sânzio mais adiante, neste soneto, pelo menos, já que é o único que se conhece deste autor.

Duplo Centenário

Completando duzentos anos de fundação em 2013 e cem em que terminou, 2014, há quem diga, no entanto, que o movimento teve vida mais prolongada. O que há de importante nele, no entanto, ocorreu neste período de 1813 a 1814. Época em que o governador Sampaio pode se distrair com os poetas no seu palácio porque, dentro em pouco, 1817, teria início a Revolução Pernambucana que tentava separar o nordeste do resto do país e proclamar a República. Movimento este que foi encabeçado, no Ceará, pela avó do autor de Iracema, José de Alencar, Bárbara de Alencar; o pai, José Martiniano de Alencar; e o tio, Tristão Gonçalves; e que se alastrou por todo o estado.

NATALÍCIO BARROSO

Da Redação

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