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Advogados usam técnicas da constelação familiar para resolver conflitos

quinta-feira, 27 de dezembro 2018

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O Judiciário brasileiro é abarrotado de processos. Quem recorre à Justiça como a última porta para solucionar seus conflitos, enfrenta a morosidade e, muitas vezes, a inconformidade com as decisões, o que faz prolongar, ainda mais, o sofrimento. Contudo, advogados e advogadas de todo Brasil estão recorrendo à incorporação da técnica terapêutica, chamada constelação sistêmica familiar, como forma de dar um olhar mais humano e afetivo durante a resolução do problema e até mesmo evitar a entrada de novos processos judiciais.

O direito sistêmico, segundo explica a advogada sistêmica, Lorrayni de Bortoli, começou a ser empregado no Brasil pelo juiz de direito, Sami Storch, na Bahia, que ao conhecer as técnicas das constelações familiares, que tem como base três leis de ordem: pertencimento, hierarquia e equilíbrio, percebeu que tais princípios poderiam ser aplicados nas audiências e, logo, analisou os resultados positivos entre as partes, que interagiam melhor.

A prática, atualmente, é apoiada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e, também, respaldada pelo novo Código Civil e podem ser sugeridas às partes antes que o conflito torne-se um ação judicial ou durante qualquer momento do processo. No Judiciário cearense, o método teve início na Vara Única de Execução de Penas e Medidas Alternativas, no Fórum Clóvis Beviláqua, através do Programa Olhares e Fazeres Sistêmicos no Judiciário do Ceará, há mais de um ano, sob a coordenação das advogadas Ana Tarna e Gabriela Nascimento, e a psicóloga Socorro Fagundes.

As sessões, chamadas de vivências sistêmicas, acontecem em uma sala apropriada dentro do Fórum, conduzidas por consteladores, que são terapeutas especializados. De pés descalços, as partes sentam em círculo e têm o drama representado por voluntários, como uma peça teatral, no entanto, representando sentimentos, comportamentos e sensações. Os conflitos levados para uma sessão de constelação versam sobre questões de origem familiar, como violência doméstica, endividamento, guarda de filhos, divórcios litigiosos, inventário, adoção, abandono, entre outros.

Na advocacia
A advogada ressalta que o direito sistêmico não é um novo ramo na advocacia, apenas a aplicação da constelação familiar que é novidade. O papel do advogado que utiliza tal técnica, é de ser um facilitador na tomada de consciência da parte, ou seja, colaborar para que o cliente possa sair da posição de ataque e se perceba dentro do conflito, pois quando os clientes participam das vivências ou percebem, através de perguntas, como as atitudes colaboram para o conflito, mudam de postura e o acordo é feito. “Vem trazer um olhar mais humano, mais afetivo principalmente para o Judiciário que já está muito defasado em termos de processos, quando dado entrada em processos novos, as partes são vistas apenas como números de processo, em ação criminal os próprios réus são vistos como artigos, e deixam de ser humano. A gente observa que quando determinada pessoa apresenta um problema e quando você dá um olhar mais humano, como um divórcio ou alienação parental, existe uma questão raiz por trás disso tudo”, destaca Lorrayni de Bortoli.

Entre os advogados, o método, segundo Lorrayni de Bortoli, vem sendo utilizado em maior adesão no Sul e Sudeste do país. O objetivo do atendimento diferenciado é de esclarecer às partes o que há por trás do conflito. “A constelação está sendo utilizada dentro dos escritórios de advocacia, chamada advocacia sistêmica, onde os advogados se permitem esse bom olhar para seu cliente, se permitem empatia, ter presença na escuta, quando você tem essa percepção de um atendimento sistêmico, já consegue, fazendo perguntas ao cliente, que ele mesmo comece a tomar consciência de certas coisas”, explicou. A advogada alerta, no entanto, para não confundir o trabalho do advogado, com o de terapeuta. “Claro, o advogado vai trazer essa visão sistêmica, mas ele é advogado, não terapeuta, infelizmente os clientes confundem isso”, ressalta.

Apesar de a técnica ser mais utilizada para resolver questões familiares, a constelação pode ser usada na área criminal, trabalhista, direito de sucessão, inventários, consumidor e até mesmo em ação de despejo. “O direito sistêmico é uma área muito ampla, e para entender um ser humano deve olhar para o núcleo familiar dele, porque a forma como ele age no núcleo familiar, é a forma como age na sociedade, então se você quer curar uma sociedade, tem que começar a tratar as famílias, que é o menor núcleo social. Na maioria dos processos, quando a gente faz uma constelação, o problema tem alguns resquícios ou origem na família, por isso é possível a constelação olhar para qualquer área do Judiciário”, explica Lorrayni de Bortoli.

Especialização
Recomenda-se que o advogado que queira implantar a técnica em seu escritório, possua cursos de especialização em atendimento sistêmico ou cursos voltados para o autoconhecimento. Com a nova gestão da OAB-CE eleita para o próximo ano, a expectativa é pela aprovação de uma Comissão de Direito Sistêmico para auxiliar os trabalhos de advogados cearenses.

Livro
Lorrayni de Bortoli e outras sete advogadas são autoras do livro “Direito Sistêmico – O despertar para uma nova consciência jurídica”, que foi lançado em novembro, já disponível nas livrarias.

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