domingo, 25 de agosto de 2019.
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“Se eu ficar sem fazer nada vou apressar a morte. Todos devem pensar nisso”

segunda-feira, 12 de agosto 2019

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Direito & Justiça | Quando o senhor começou a advogar?
João Gonçalves de Lemos |
Comecei um pouco tarde, passei por outras áreas, fui professor. Minha carreira como advogado foi mais no Rio de Janeiro, começou em 1967, fui também funcionário do Ministério da Educação e minha Advocacia era muito restrita, não posso dizer que fui um grande advogado. Sempre advoguei na área cível.

Direito & Justiça | O senhor deixou de advogar quando?
João Gonçalves de Lemos |
A rigor, ainda não deixei. Deixei de receber novos processos, mas continuo concluindo os processos que existem. Tenho 92 anos, não me parece bem continuar nessa luta. Por isso, essa trégua.

Direito & Justiça | Além de ter alguns processos em andamentos, o senhor ainda atua como presidente do Instituto dos Advogados do Ceará. Como está sendo essa experiência?
João Gonçalves de Lemos |
Sou presidente do Instituto dos Advogados do Ceará que, por sua vez, compõe o Colégio de Presidentes dos Advogados do Brasil. Esse é meu segundo mandato, o primeiro mandato foi um biênio e esse começou em 2018 e terminará em 31 de dezembro de 2020. o instituto foi instituído com a missão precípua de organizar a OAB aqui no Ceará. Portanto, há quem diga que o ele é o pai ou a mãe da Ordem, quem dizia muito isso era o doutor Luiz Vasconcelos. Além dessa missão, o instituto continua sendo uma casa de estudos de Direito, muito preocupada com a ordem jurídica e o estado democrático de direito. Estamos constantemente discutindo temas variados, os mais atuais possíveis.

Direito & Justiça | O senhor se orgulha da Advocacia?
João Gonçalves de Lemos |
Tenho orgulho, não só da questão da Advocacia, mas do Direito. As pessoas discutem sobre essa ou aquela profissão, todas são belíssimas, depende da vocação que cada um tem e como exerce. Não quero dizer que a minha é mais importante. Para se ter uma ideia, está na Constituição Federal de 1988, no artigo 133, dizendo que o advogado é essencial à administração da Justiça e, portanto, faz parte de um tripé de Direito e Justiça: a tese, que seria uma petição inicial, a antítese, que seria a contestação, e a síntese, que seria a decisão da sentença.

Direito & Justiça | O que acha desse boom de faculdades de Direito nos últimos tempos, e a extinção do exame da Ordem?
João Gonçalves de Lemos |
A proliferação é preocupante. Muitos podem pensar que é uma injustiça o Exame da Ordem, porque deixa muita gente de fora do mercado de trabalho. Para um juiz ingressar no serviço, ele faz um concurso e é aprovado, o promotor também faz para o Ministério Público, então, por que só o advogado não se submeteria a outro concurso? Por isso, o Exame da Ordem deve existir para que haja um equilibrio, já que faz parte deste tripé.

Direito & Justiça | Recentemente, os brasileiros foram impactados, mais uma vez, com os escândalos envolvendo a Lava Jato. Desta vez, com conversas entre o ministro Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol. O que esperar daqui para frente?
João Gonçalves de Lemos |
Essa é uma situação delicada, é melhor a gente esperar, vamos dizer que as coisas se assentem. Evidentemente, que um diálogo entre as pessoas não é para ser bisbilhotado. As coisas que foram ditas não foram tão adequadas. É bom que esclareçam o assunto de tal maneira que a população seja atendida satisfatoriamente.

Direito & Justiça | Que outras atividades o senhor divide seu tempo para manter a cabeça no lugar como diz?
João Gonçalves de Lemos |
Escrevi muito sobre Direito, sobre ciências. Fui presidente por muito tempo da Academia de Ciências Sociais e fizemos reuniões internacionais. Participo de várias instituições culturais, não só brasileiras, mas estrangeiras, como em Paris, que sou membro de uma academia, em Lisboa, de duas e outra na América do Sul. Agora, estou escrevendo um livro contando o perfil de cada membro da minha família, de 29 irmãos, 21 homens e 8 mulheres, segundo a minha visão. Sou o 23º por ordem de nascimento e o 7º da minha mãe. Já tenho uns 10 livros publicados.

Direito & Justiça | O senhor nunca pensou em parar as atividades?
João Gonçalves de Lemos |
Não, porque se eu parar, vou pensar na morte da Bezerra (expressão popular). Tenho conversado com algumas pessoas da minha idade ou mais novos, e todos são unânimes, não se deve parar, porque vai ficar ocioso, pensando. É uma realidade, se estou com 92 anos, tenho que ter a consciência exata de que não há muito tempo. Se eu ficar sem fazer nada, o que vai acontecer é que vou apressar a morte. Todos devem pensar nisso.

Direito & Justiça | Que mensagem o senhor deixa aos jovens advogados que estão em início de carreira?
João Gonçalves de Lemos |
Quem sabe não seria uma mensagem que já está feita? Vou lhe mostrar, porque a minha filha sempre me ajudou e dediquei uma mensagem a ela, que era advogada (in memorian) no livro Tópicos de Direito – Reunião de textos esparsos. Eu disse assim: ‘Ninguém faz nada sozinho. E este livro resulta de experiências profissionais, bem como da participação da jovem advogada Rosemary Amorim de Lemos que me acompanhou as modestas atividades literárias, jurídicas e em outros campos do pensamento, mercê das trocas de ideias e da profícua atividade jurídica no nosso escritório […].
Como pai e colega no múnus advocatício, presto-lhe especial homenagem que se estende a todos os operadores do Direito, especialmente aos advogados e às jovens advogadas que, como ela, podem guardar a esperança em seus corações?

Direito & Justiça | O senhor se emociona muito ao falar de sua filha que também foi advogada.
João Gonçalves de Lemos |
Para mim, minha filha é um orgulho, ninguém voltava do escritório sem ser atendida, mesmo se não pudessem pagar, para ela não tinha problema. Às vezes, após o término do processo, a pessoa voltava para dar metade da importância, ela não aceitava. Ela advogou muito de graça e nem por isso deixou de ter êxito na sua carreira.

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