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Somos vigiados

quinta-feira, 28 de abril 2016

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Nas ruas, em casa, no trabalho, na escola, nos shoppings, em qualquer lugar que se vá, somos vigiados. Nada escapa aos olhos, digo, as lentes atentas das câmeras. Somos monitorados, invadidos, fiscalizados, escaneados e mais um pouco. Nada de privacidade; tudo se convergiu em púbico ou potencialmente em público. E não ousem pensar em nada diferente, pois a vigilância nos nossos tempos é, em grande parte, voluntária. O controle feito pelo Partido, “personificado” pelo Big Brother, no mundo distópico de Orwell, dá-se pela vigilância constante, a qual controla tudo, inclusive, os pensamentos dos indivíduos. Desse modo, o indivíduo deve estar integralmente sob o controle do Big Brother, que tudo vê e ouve. Assim, qualquer desvio de conduta, ainda que seja em pensamento, é considerado crime, o qual se chama “crimideia”.

Não há, portanto, a possibilidade de o indivíduo pensar por si mesmo, tampouco questionar a realidade posta pelo Partido. Bem como todo meio que propicie o autoconhecimento, como fazer algo sozinho, é visto como uma conduta imprópria e perigosa, a qual se chama “proprivida”. Ou seja, os indivíduos são despersonalizados e convertidos em autômatos controlados pelo Big Brother.

O mundo em 1984 não difere em nada do nosso. A vigilância que sofremos contemporaneamente é tão autoritária e controladora quanto a do livro. Assim como no livro, somos dominados pela ideologia dominante, o que significa dizer em termos marxistas, que a dominação não acontece pela força, mas sim pelo convencimento. Isto é, a realidade é moldada segundo as vontades da classe dominante, que nos vendem como verdades as suas mentiras arquitetadas. Essa falsa consciência da realidade, que aceitamos, no entanto, não é construída e controlada apenas pelo Estado.

É o que bem atenta Foucault, uma vez que os mecanismos de poder, na sociedade capitalista, subdividem-se em microrrelações, de modo que ultrapassam o Estado e atingem a vida cotidiana. Sendo assim, a vigilância acontece em todas as esferas do convívio social, produzindo e impondo normas de comportamento e adequação.

Seguindo o modelo do panóptico, há uma visibilidade total do indivíduo, fazendo com que a sua vida privada também se converta em pública, a fim de que seja controlada nos mínimos detalhes. Esse aspecto torna-se possível pelos aparelhos tecnológicos e pela internet. Estes são como a teletela de Orwell e exercem a mesma função do Big Brother, qual seja, vigiar a vida das pessoas, assim como punir os inadequados. A vigilância total das sociedades atuais deveria causar desconforto e falta de liberdade. Entretanto, as pessoas parecem estar à vontade e totalmente dispostas a contribuir para o controle. Imersos no conteúdo midiático, seguem as ordens do Big Brother que lhes indica o que deve ou não ser feito, o que em uma sociedade consumista, pode ser resumido como o que deve ou não ser (existe essa possibilidade?) comprado. Após isso, correm para as redes sociais, para que possam postar suas selfies, demonstrando para o Big Brother que, como bons companheiros, seguiram à risca os seus comandos.

Rossana  Brasil Kopf
Advogada

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