quarta-feira, 23 de janeiro de 2019.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

"você jamais será livre sem uma imprensa livre." - Venelouis Xavier Pereira

Cavalos-marinhos persistem no rio Pacoti

terça-feira, 11 de fevereiro 2014

Imprimir texto A- A+

Por CANDICE MACHADO
[email protected]

Os cavalos-marinhos eram conhecidos no mundo antigo através dos ensinamentos de Plínio, naturalista e comandante militar do Império Romano. Segundo ele, as cinzas desses bichinhos combatiam febres, calvície, erupções da pele e evitava a morte dos que haviam sido mordidos por cão raivoso. Para os antigos gregos, o bicho concebia um veneno fulminante quando embebido em vinho, mas era reconhecido como um poderoso antídoto contra outros venenos, desde que fosse engolido com vinagre e mel ou misturado com piche. Ainda hoje, na tradicional farmacopeia chinesa, o cavalo-marinho é tido como um potente afrodisíaco. No Brasil, são valorizados pelos negócios especializados em peixes ornamentais e no hobby do aquarismo. Em ambiente natural, a presença deles é um belo indicativo de que as águas permaneçam saudáveis.

Para Paulo Pereira, morador de Precabura, comunidade localizada no entorno da Área de Proteção Ambiental (Apa) do Rio Pacoti, os cavalos-marinhos estão intimamente ligados à conservação da memória cultural de sua gente.

Usado, principalmente, como recurso medicinal pelos mais antigos moradores, e até como amuleto de sorte, o bichinho, que atravessou a história de várias gerações locais deixou sua utilidade no passado, juntamente com os conhecimentos sobre essa prática e boa parte da memória local. “É uma cultura que está sumindo com aqueles que vão partindo. E quando o povo perde sua história, suas raízes, perde também suas convicções, quer dizer, ele morre. E essa é a forma mais feroz de se matar um povo, porque as pessoas ficam sem identidade, como uma árvore sem raiz, que o vento leva para onde quer. Um povo sem memória é um povo sem patrimônio, que facilmente vai ser destruído e conduzido, como quem se deixa adestrar”, constata.

BATALHA PELA SOBREVIVÊNCIA

A tradução tupi-guarani para Precabura, a comunidade de Paulo, é “Vale da Batalha”. Nome, que segundo ele, condiz com a realidade. “Não só o cavalo-marinho, mas as histórias sobre pesca e seus usos são a vida das comunidades que giram em torno da foz do rio Pacoti, mas a especulação é intensa, a população nativa está indo embora. A presença de cavalos-marinhos também já foi mais constante, mas há 10 anos o rio vem sendo agredido e diminuiu bastante”, avalia.

No entanto, povo, rio e bicho ainda resistem. Cerca de nove comunidades sobrevivem diretamente da utilização dos recursos naturais do Pacoti, realizando atividades ligadas à agricultura de subsistência, pesca e outras referentes ao turismo. Enquanto isso, o estuário do rio segue como um berço dos cavalos-marinhos.

O coordenador do Laboratório de Ecologia Animal do Instituto de Ciências do Mar (LECA-Labomar), Tito Monteiro da Cruz Lotufo, alerta que apesar de positiva, a presença desses animais não é uma garantia absoluta de saúde do ecossistema. “Os cavalos-marinhos são relativamente sensíveis, morrem facilmente, mas só que podemos garantir, com certeza, é que eles ainda não foram afetados”, pondera.

Segundo Tito, não há pesquisa recente sobre a quantidade desses animais no Ceará, mas praticamente em todo estuário ele é encontrado. “Os últimos estudos indicavam uma densidade muito baixa”, relata. Hoje, o Hippocampus – nome científico do pequeno animal – é considerado espécie criticamente ameaçada, conforme a Convenção Cites, de Washington, sobre comércio internacional de espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção.

A convenção determina uma cota para cada empresa exportar espécimes capturados da natureza, sendo emitidas licenças de exportação específicas para cada remessa, a licença Cites. No caso de espécimes comprovadamente nascidos em cativeiro devidamente registrado, a cota não seria necessária, mas a exportação ocorreria mediante a solicitação e emissão de licença Cites para cada remessa.

De acordo com o analista ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), Daniel Accioly, em 2013 não houve nenhuma apreensão de peixes ornamentais ou de cavalos-marinhos exportados ilegalmente. “Para as empresas isso não é nada atrativo, frente aos custos e à dificuldade da empresa se firmar nesse mercado, e tal atividade poria em risco o funcionamento da empresa”.

RIO QUE CORRE VULNERÁVEL

Mas se o volume de exportações parece não representar ameaças, a situação no entorno dos estuários pode explicar a percepção de Paulo sobre a diminuição de cavalos-marinhos no rio Pacoti. Em manhã de plantio de mudas nativas, na Apa do rio Pacoti, nossa equipe presenciou agressões cometidas contra o ecossistema, muitas vezes, por falta de conhecimento e fiscalização.

Na ocasião, a planta indiana Neem foi retirada do pátio do Labomar, que fica na APA do rio Pacoti, e em seu lugar foi plantado o Jucá, também chamado de pau-ferro, que abunda a flora cearense. O Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente (Conpam) cedeu 50 mudas oriundas do Parque Botânico do Ceará, de várias espécies nativas, para a substituição das exóticas invasoras existentes no local. A ação atendeu a um dos objetivos da Lei no 9985/2000, do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), que consiste em proteger e restaurar os ecossistemas presentes nas unidades de conservação.

Durante uma inspeção do local, o pesquisador do Labomar, Roberto Kobayashi, apontou inúmeras irregularidades que são constantemente encontradas, como despejo de lixo no leito do rio e pesca feita de forma ilegal. “Não há fiscalização, nem consciência ambiental, muitos habitantes nem sabem quando estão agredindo o rio ou pescando de forma predatória”, denuncia.

Além disso, Kobayashi também ressaltou deficiências na estrutura, como a ausência de lixeiras e de rampa de acesso ao rio em áreas utilizadas pela comunidade, falta de sinalização sobre a existência da Apa e a necessidade de um suporte para a guarda de material de esportes aquáticos não motorizados. O vice-presidente do Conpam, Afonso Neto, que acompanhou a ação, também constatou a presença de habitações irregulares na área.

DENÚNCIAS JÁ FORAM ENCAMINHADAS

Em nota enviada pela assessoria de comunicação do Conselho, as adequações sugeridas por Kobayashi serão analisadas pela gestora da Apa do Rio Pacoti e repassadas à coordenação da Cobio/Conpam. “Tendo em vista a parceria estabelecida entre pesquisadores, entidades inseridas na APA e a gerência da mesma, visamos somar esforços para melhorar as condições ambientais do rio Pacoti”. Além disso, já está em andamento o projeto de colocação de placas indicando os limites da APA e orientando a população quanto às atividades proibidas, com base na legislação ambiental.

Sobre a definição de um plano de manejo da APA, a assessoria afirmou que o projeto está em processo de atualização. Além disso, ressaltou os projetos previstos para 2014: realização de palestras em escolas, abordando o que são unidades de conservação e sua importância; realização de oficinas de reciclagem e educação ambiental para a comunidade; levantamento das espécies da flora e fauna local; sobrevoo da área para identificação de irregularidades, dentre outras ações.

Quanto às irregularidades identificadas, a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) já agendou ações de fiscalização para esta semana, visando minimizar a problemática.

Instagram

[instagram-feed]

Facebook

Twitter