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Entre a folia e a sujeira

terça-feira, 21 de Fevereiro 2017

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A maior festa popular do Brasil está se aproximando, os sons dos tambores e das percussões já podem até ser ouvido lá longe. Se avizinha o período em que as pessoas normalmente extravasam, colocam para fora todas as angústias e agruras vividas ao longo do ano, passam a ser – pelo menos por alguns dias – alguém que elas não são de verdade (até por isso o uso de máscaras e fantasias), encarnam seus personagens e caem na folia. Com isso, vem também o aumento do consumo de bebidas (alcoólicas – o mais comum – ou não) e, consequentemente, mais embalagens pet ou de alumínio (as populares latinhas), e até de vidro esporadicamente, descartadas por aí.

Se a máscara cobre o rosto dos potenciais pierrôs, arlequins e colombinas nos bailes, não pode mascarar esse grave problema visto e vivenciado em todo o País durante a Folia de Momo. Vendedores e consumidores não fazem muita questão de destinar corretamente os produtos já esvaziados pela sede de festa, deixando-os quase sempre pelas ruas, avenidas, praças e praias, trazendo à tona aquelas velhas cenas de sujeira extrema comuns após grandes eventos espaços públicos.
Como, por exemplo, no Réveillon do Aterro do Praia de Iracema, em Fortaleza, ou de Copacabana, no Rio de Janeiro, dois dos mais conceituados destinos todos os fins de ano e que normalmente ficam repletos de entulhos e imundície logo no primeiro dia do ano. Na Capital cearense, em 2016, estima-se que cerca de 80 toneladas de lixo foram descartadas pela praia, obrigando a Empresa de Limpeza Urbana (Emlurb) a destinar mais de 300 coletores para limpar toda a bagunça deixada por quem ainda não entendeu que as areias ou calçadas não são lixeiras gigantes. E como será no Carnaval, que são quatro dias e uma festa que se espalha por toda a cidade?

Atenção
Se depender da preocupação da Secretaria de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), a alegria do fortalezense – e dos turistas que vierem à Capital com intuito de se divertirem – será em meio a um espaço limpo e bem cuidado. Isso porque a atenção será ainda maior no período carnavalesco, porém a preocupação com a limpeza urbana, com o meio ambiente, e até mesmo com outros fatores ligados à população parece ser uma constante por parte do órgão.
A poluição pode ser também sonora e mesmo em meio à folia a ordem e as regras precisam ser mantidas. No combate à utilização de aparelhos sonoros irregulares, a Seuma trabalha com fiscalizações diárias de domingo a domingo por busca ativa ou atendendo denúncias, e durante o Carnaval continuará atuando. As denúncias podem ser realizadas na ouvidoria da Secretaria por meio do número (85) 3452.6923 ou pelo site do órgão www.fortaleza.ce.gov.br/seuma; ou no número 190, do CIOPS.

A limpeza de Fortaleza, que é considerada uma cidade veterana na produção e realização de grandes eventos artísticos, portanto, segundo a secretaria, a operação nesses casos é sempre bem planejada e, com isso, o combate à poluição tem sido positivo e recorrente, já que a Seuma acompanha muito de perto as coletas e limpezas dos locais realizadas pela concessionária, além de eventuais ações de coleta seletiva em parceria com catadores. Durante o Carnaval, a estratégia deve ser a mesma adotada em outros anos.

Atitude
Desde 2013, a Seuma desenvolve o Programa Reciclando Atitudes, que nada mais é que a promoção de processos de reciclagem com a inclusão dos catadores, incentivando a coleta adequada de resíduos e, assim, garantindo a manutenção da qualidade ambiental e processos sustentáveis de reciclagem, observando os aspectos ambiental, social, econômico e energético. Com isso, a iniciativa colabora para a efetivação de uma Cidade sustentável.
O programa atua fundamentado em quatro eixos: sensibilização, articulação, formação e estruturação. Ou seja, por meio do programa já foram capacitados 800 catadores para atuarem adequadamente, em especial, em grandes eventos, como a Copa do Mundo, na qual foram coletadas 45 toneladas de resíduos.

Denúncia
O tema da preocupação com resíduos descartados em vias urbanas em meio à festa que antecede os quatro dias de folia surgiu em nossa pauta através da denúncia de um leitor. A partir daí nossa reportagem percorreu alguns bairros de Fortaleza no pós-folia dos animados pré-Carnavais e a observação feita pelo atento leitor era absolutamente procedente. Nem precisamos andar muito para que as cenas lamentáveis de lixo espalhado viesse à tona. Em meio à sujeira, chamou a atenção a quantidade exorbitante de packs (embalagens plásticas que revestem os populares fardos de latinhas ou garrafas pet de cerveja, refrigerante e água mineral).
Dentre os vários lugares visitados por O estado Verde, o que mais chamou atenção são os arredores da Praia de Iracema, lugar tradicional de inúmeros blocos de Carnaval, principalmente alguns entroncamentos com a Avenida Historiador Raimundo Girão (Rua Ildefonso Albano, Rua Gonçalves Ledo, Rua dos Arariús, são algumas que podemos destacar).

“Esses packs de plástico não têm tanto valor comercial quando se fala em reciclagem, talvez por isso não são coletados com a mesma atenção que as latinhas e as embalagens pet, ou seja, a logística reversa não é colocada em prática por completo. As empresas responsáveis por comercializar esses produtos deveriam ser as mais preocupadas com recolhê-los, não permitir que esse tipo de material caísse no meio ambiente”, destaca o cientista ambiental Rennyer Holanda, que vai além.
“Sem falar na poluição visual desses plásticos perambulando pelas esquinas da cidade após os festejos, a destacar que são materiais não biodegradáveis, ou seja, de lenta decomposição, ainda tem um outro fator que vem à tona principalmente nesse período atual: o acúmulo desses invólucros plásticos causa entupimento de bueiros pela cidade, consequentemente gerando alagamentos durante a quadra chuvosa, trazendo transtornos para toda a população. Está vendo como tudo está conectado? O pack jogado ao relento, como quem não quer nada, pode resultar em grandes consequências futuras, por isso é importante a responsabilidade ambiental”, explica o cientista.

Seu João, alcunha que usaremos para trazer à história um vendedor ambulante que prefere não se identificar, confirma que os cuidados com as embalagens plásticas, principalmente, não são grandes assim. “Pela rapidez que a gente precisa ter para vender, não dá tempo de ter muita atenção com as caixas e com os plásticos que sobram, a gente vai colocando esse lixo na calçada, empilhando, juntando, daí muitos deles acabam ficando por aí mesmo, pessoal chuta, o vento leva. Tem catadores que levam para vender, mas é mais as latinhas mesmo, esses plásticos ficam por aí, para mim não serve”, confessa.

E a responsabilidade?
Quando falamos em logística reversa, lembrada por Rennyer Holanda, entendemos que a empresa responsável por produzir e abastecer o mercado com as bebidas em questão é quem deveria se responsabilizar por dar o devido descarte correto aos produtos, no caso a Companhia de Bebidas das Américas (AmBev) seria esse nome. Isto porque a Skol, marca pertencente à AmBev, é a parceira oficial da Prefeitura de Fortaleza na Folia de Momo. Buscamos contato com a AmBev através de sua assessoria de comunicação durante alguns dias, chegamos a conversar e solicitar respostas a alguns questionamentos, porém não as tivemos até o fechamento desta edição. A intenção era trazer ao leitor o outro lado da questão, abrir espaço para que a empresa falasse sobre suas ações, sobre seus projetos de responsabilidade social e como seria a estratégia para dar conta de toneladas de materiais oriundos das bebidas que serão consumidas ao longo dos quatro dias de Carnaval. Infelizmente, não pudemos expor o outro lado ou trazer soluções concretas.

Realidade
O fato é que, tirando como exemplo os pré-Carnavais em Fortaleza, temos razões de sobra para nos preocuparmos com a grande folia que está por vir nos próximos dias. Vale ressaltar que, por estarmos vivendo o período invernoso, esses plásticos descartados incorretamente podem armazenar água e, assim, servirem como ambiente ideal para proliferação do vetor da dengue. Isso sem falar no risco de caírem no mar e prejudicarem a vinda marinha, já que muitos bichos acabam se enganchando nesses produtos ou até ingerindo-os, causando mutilações e óbitos.

Por Fellipe Málaga
oev@oestadoce.com.br

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