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No lugar de lixo arte, árvores e flores

Por Tarcilia Rego tarciliarego@gmail.com

terça-feira, 05 de dezembro 2017

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Meses depois de requalificado, ponto na Pinto Madeira com a Rua Gonçalves Ledo foi pichado – FOTO LUCAS MOURA

Quase que diariamente, ao transitar na Rua Pinto Madeira com a Gonçalves Ledo, o cidadão que por ali passasse, deparava-se com um espantoso acúmulo de lixo. De sofás a entulhos, sacos de lixos com restos de alimentos e até mesmo recicláveis eram descartados, diariamente, sobre o passeio.
Uma cena deprimente, como se quem jogava os resíduos ali, não vivesse em Fortaleza ou então, não tivesse qualquer sentimento de pertencimento para com a localidade e não fizesse parte integrante de um sistema maior, que é a nossa cidade.
Eu disse jogava, por que recentemente, o cenário, naquele espaço mudou. Um dia, graças a intervenção do Projeto Reciclando Atitudes na Cidade, parte integrante do Programa Reciclando Atitudes, o ponto de lixo foi requalificado e como um milagre virou um local aprazível e humanizado. O muro, antes, sujo e insalubre, recebeu boas e coloridas pinceladas, retratando a natureza.

Requalificação
O Projeto Reciclando Atitudes na Cidade, parte integrante do Programa Reciclando Atitudes, que tem à frente, a educadora ambiental, Edilene Oliveira, coordenadora de Políticas Ambientais da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), tem a função de requalificar espaços de descarte inadequado de lixo, por meio de artes de rua, fiscalização, educação ambiental e ciclomonitoramento, no entorno desses pontos, em toda Fortaleza.

“Já estamos com 202 pontos requalificados. Requalificar, não é só retirar o material que ali é descartado. Quando começamos a fazer os pontos de lixo, eu disse logo: não quero ‘ boneco cabeção’, não quero grafitagem agressiva. Nada contra a arte urbana, mas nos pontos requalificados, eu quero flores, borboletas. Foi aí que começou o movimento, no lugar de lixo árvores e flores.”

Para a decepção dessa que lhes escreve e de alguns transeuntes e moradores do entorno, meses depois de requalificado, o espaço na Pinto Madeira foi literalmente pichado. Sobre a bonita natureza que havia sido pintada no muro, como uma tormenta, surgiram rabiscos e expressões inelegíveis, de cor preta. Ficou feio…
O cidadão Tasso Gonçalves não gostou nada da “sujeira visual”. Ele passava por acaso no logradouro – estava indo ao médico, quando viu a parede toda pichada tentando encobrir a leve e “bacana” pintura, resultado da requalificação do ponto. Ele ficou zangado.

“É um delinquente, ele não tem respeito para com a sociedade. Para mim, quem fez isso é um marginal. Ele não tem esse direito e merece ser punido severamente. Isso não é, e nunca foi protesto, é falta de cultura”, disse Tasso Furtado, que referiu se identificar como um cidadão que ama Fortaleza.

Desconstruir
Perguntamos para a educadora ambiental e coordenadora de Políticas Públicas da Seuma, o que pode estar por trás desse comportamento, essa atitude nada cidadã. A impressão é que para esta pessoa, a sua casa é da porta pra dentro, da porta para fora ela não se implica e o problema é do poder público e ele que resolva.
Para Edilene, trata-se do entendimento do conceito de casa e cidade. “O Recicla Atitudes trabalha buscando desconstruir o ‘rebola no mato’ o ‘botar fogo’”, atitudes que têm a ver com práticas exercidas, quando boa parte dos cidadãos, ainda residia no interior e que passa a replicar na cidade, sem perceber as diferenças de ambientes.
“Lá no interior ao terminar de varrer a casa, a gente apanhava tudo em uma lixeira de palha e jogava por cima da cerca, direto no mato. Descascava batatas, frutas, e sem medo, jogava tudo no mato”, conta Edilene, relembrando o tempo em que vivia com sua avó, no interior do Ceará.

“Quando as pessoas se mudam para os centros urbanos, trazem o velho hábito. Mas jogar um caroço de manga, no terreiro, era bem diferente . Aqui, se jogar um caroço ou casca de manga na calçada , pode provocar a queda de uma pessoa e aí já começa a impactar , também, o serviço de saúde pública”, alerta a especialista.

Estratégias
Para Edilene, “o caminho é buscar desconstruir, esse modelo”. Ela acredita que “Fortaleza já começou a acordar” para a questão. “É um problema cultural e isso pode mudar”. Seguindo quais estratégias?, eu perguntei.

“Aqui nós acreditamos em capacitação e acreditamos no envolvimento e na sensibilização desse sentimento de pertence ( geralmente relacionado ao fato ou à circunstância de fazer parte de um conjunto, seja um grupo, uma comunidade, etc.), por que eu sou da cidade. A cidade é minha, a cidade é minha casa”, explica.

“O maior desafio que nós temos, tratando-se do lixo, é o cultural. Tanto que dentro do ‘Reciclando Atitudes, na escola’, nós temos um programa de formação de professores. São 40 horas, já inclusas no calendário oficial de capacitação de docentes, da Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza (SME). ”

O programa também trabalha com escolas privadas , mas com as públicas, já é sistemático. “Hoje a nossa relação com a SME é muito forte. Nós saímos da esfera do pontual, esse foi um grande avanço do ano passado pra cá. Só esse ano já trabalhamos com 11 mil pessoas , entre professores e alunos.” A primeira aula do programa é denominada de a Natureza do Cotidiano.

FOTO DIVULGAÇÃO

Projeto Ecocidadão
Quando entrevistei a coordenadora de Políticas e Ambientais da Seuma, Edilene Oliveira para produzir esta matéria ela me falou uma frase que gravei bem: “o melhor encontro é quando o interesse privado vai ao encontro do público.” É exatamente o que acontece com o programa Ecocidadão, iniciativa que, em Fortaleza, é tocada pelo Grupo Marquise e pela Ecofor Ambiental.

A iniciativa tem entre os seus objetivos principais: promover conscientização e sensibilização , através da educação ambiental, reduzir os impactos causados pela disposição inadequada do lixo; levantar os principais impactos dessa disposição inadequada e desenvolver soluções técnicas e operacionais para possibilitar coleta de resíduos, em áreas de difícil acesso.

O projeto atua com ações que envolvem educação porta a porta, implantação de garis comunitários e também com a transformação de pontos de lixo, que são posteriormente adotados pela comunidade e claro, orientações à população e recebimento de materiais recicláveis nos ecopontos, por meio de operadores ambientais.
O Ecocidadão também empreende ações com foco em escolas, com o propósito de promover conscientização e sensibilização ambiental, através da educação e diminuir a incidência de lixo solto na ruas e orientar de forma lúdica sobre o seu descarte. Materiais interativos voltados a crianças de 8 a 12 anos e jogos educativos no formato Uno, são distribuídos nas escolas.

Plataforma Reciclando Atitudes na Cidade
Projeto Reciclando Atitudes na Cidade é parte integrante do Programa Reciclando Atitudes, iniciativa criada para promover a requalificação de pontos de lixo em toda a cidade.

Segundo a coordenadora Edilene Oliveira (foto), o objetivo é “despertar a reflexão da sociedade” para a gestão adequada dos resíduos sólidos e promover, não apenas a remoção daqueles descartados indevidamente, mas mobilizar a comunidade do entorno do ponto de lixo, com ações de conscientização .

As ações socioambientais do projeto promovem a sensibilização, capacitação, parcerias institucionais, cooperação técnica, infraestrutura e monitoramento de resultados.
Com a requalificação dos pontos de lixo ou rampinhas, ocorre a otimização de recursos humanos, financeiros e físicos da Prefeitura Municipal de Fortaleza, devido não necessitar mais de coleta especial de resíduos naquela área. As ações do projeto envolvem também, parcerias com secretarias, órgãos da administração indireta, sociedade civil e todos os munícipes em geral.

Saiba mais sobre o projeto em: catalogodeservicos.fortaleza.ce.gov.br/categoria/urbanismo-meio-ambiente/servico/208

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