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terça-feira, 21 de janeiro 2014
Por Marcelo Freire Moro*
Todos nós sabemos que o planeta passa por uma crise de perda de biodiversidade. Essa situação é gerada em grande parte pela destruição dos ecossistemas, seja pelo desmatamento, seja pela poluição. Reduzindo a cobertura vegetal do planeta e poluindo rios e mares, os seres humanos já levaram muitos milhares de espécies à extinção e atualmente calcula-se que mais de 40% da superfície terrestre do planeta já esteja alterada em decorrência das ações antrópicas. Os cientistas estimam que a velocidade com que as espécies estão se extinguindo atualmente é de 100 a 1000 vezes maior do que seria se a nossa espécie não agisse de modo tão brutal.
A maioria das pessoas compreende que o desmatamento e a poluição geram graves impactos ambientais. Mas existe outra ameaça aos ecossistemas, menos óbvia: a introdução de espécies exóticas e invasoras. Espécies exóticas são organismos – plantas, animais ou fungos – que são introduzidos pelo homem em uma região onde antes eles não ocorriam e, uma vez chegando na nova região, passam a se reproduzir e se espalham sem controle, causando impactos sobre as espécies nativas. Animais como ratos, coelhos e cabras introduzidos em ilhas já causaram prejuízos incalculáveis aos ecossistemas nativos, levando à extinção de várias espécies de aves.
Mas não são apenas animais exóticos que geram problemas. Plantas exóticas, também, podem causar impactos. Os danos ambientais gerados por algumas espécies invasoras são graves e podem resultar na alteração radical de ecossistemas e na redução da biodiversidade nativa, como é o caso dos impactos gerados pelos pinheiros (Pinus elliottii) no Cerrado, pelas jaqueiras na Mata Atlântica e pelas algarobeiras na Caatinga. Muitas pessoas não estão cientes dos riscos que essas plantas levam aos ecossistemas naturais e, na condição de apreciadoras de plantas ornamentais e sem ciência dos impactos gerados pelas plantas invasoras, acabam disseminando pelo uso ornamental plantas que geram problemas ambientais.
Antes de se permitir que uma espécie exótica seja introduzida em uma nova área, é preciso que equipes técnicas qualificadas de cada país avaliem cuidadosamente se esta poderá se tornar invasora. Caso a espécie tenha potencial de se reproduzir sem controle e de competir com as espécies nativas, a introdução da espécie deve ser proibida. Mas nem sempre é o que acontece, e de tempos em tempos, uma nova planta exótica, potencialmente perigosa, é colocada no mercado de mudas como uma novidade e é amplamente disseminada. Um bom exemplo é o nim indiano (Azadirachta indica) que tem sido cultivado na arborização e paisagismo de várias cidades do Nordeste.
No Ceará, atualmente, o nim, é muito comum, e infelizmente mais e mais mudas continuam sendo distribuídas. O problema é que esta árvore está se reproduzindo e está começando a se espalhar em áreas com vegetação nativa. Se ela vier a se estabelecer como invasora, certamente vai competir por espaço com as árvores nativas e será mais uma fonte de impactos para a já tão ameaçada flora do Nordeste. Outro exemplo é a trepadeira viuvinha (Cryptostegia grandiflora), trazida da África como ornamental e atualmente ocupa os carnaubais do Ceará, crescendo descontroladamente sobre a nossa árvore símbolo.
Um efeito colateral da disseminação indiscriminada de plantas exóticas e da desvalorização da flora nativa é que hoje qualquer pessoa sabe reconhecer um pé de nim, originário da Ásia, mas poucos sabem o que é um juazeiro, oiticica, pau-branco, angico, trapiá e tantas outras plantas nativas dos nossos ecossistemas. Uma incoerência, considerando que o Brasil é reconhecido como o país com mais espécies de plantas nativas do mundo. As plantas nativas dos nossos ecossistemas, essas sim, deveriam ser conhecidas, valorizadas e disseminadas por meio da arborização e do paisagismo.
Devido ao desconhecimento, gestores públicos e prefeituras acabam apoiando e incentivando a disseminação de mais espécies invasoras recém-chegadas, ao mesmo tempo em que não contribuem para a disseminação da flora regional. E a falta de plantas nativas nas cidades representa, além de irreparável perda natural, uma perda cultural, também. O juazeiro, o mandacaru, a carnaúba, tão cantados em versos e prosas e presentes nos ecossistemas naturais de nossa região, raramente podem ser vistos na nossa arborização. Uma criança que nasce hoje em uma cidade brasileira, dificilmente, tem ou terá a oportunidade de reconhecer o que é um pé de cajá, caju, jenipapo, chichá, oiticica, essas sim, as espécies que devem ser cultivadas e disseminadas através da produção e plantio de mudas.
*Integrante do Movimento Pró-Árvore