29 C°

quarta-feira, 18 de outubro de 2017.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

"você jamais será livre sem uma imprensa livre." - Venelouis Xavier Pereira

Panificação do Ceará mostra força ante a crise

segunda-feira, 20 de março 2017

Imprimir texto A- A+

Enquanto muitos segmentos da economia têm sido impactados pela conjuntura econômica desfavorável, um dos que tem sobrevivido aos impactos é a indústria de panificação, que vem investindo na inovação de produtos e serviços como forma de segurar a clientela. Para falar sobre o comportamento e novidades do setor, o presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria no Estado do Ceará (Sindpan-CE), empresário Ângelo Márcio Nunes de Oliveira, concedeu entrevista exclusiva ao Jornal O Estado, em que, entre outros pontos, apontou a importância do segmento, que abrange duas mil indústrias no Estado, gerando 30 mil empregos diretos.

O Estado – Como tem sido o desempenho do setor de panificação nesse período de crise, no Ceará?
Ângelo Oliveira – O setor de panificação tem sofrido pouco com a crise. Esse é um setor que está presente em todos os municípios do Estado do Ceará e, onde tem sentido mais, é na periferia e no interior do Estado, tanto como outros segmentos, que têm sofrido bastante por não ter uma atividade que seja de uso diário. A panificação, realmente, é uma extensão do lar do cearense, e atende a várias necessidades da população, como o café da manhã, almoço e jantar, e que sustenta essa necessidade do povo, de uma forma mais barata – por isso não tem sofrido tanto –, e eu digo, até, o setor de alimentação. Vejo que caiu de uma forma bem menor que outros segmentos, e a queda no setor de panificação (mais especificamente) se deve ao número (menor) de clientes, enquanto que o tíquete-médio do setor tem até aumentado, devido à inflação. Em fluxo de clientes, tivemos uma queda de 5% a 10%, em média.

OE – No ano passado, como a valorização do dólar, que ultrapassou a barreira dos R$ 4,00, impactou o setor? Isso influenciou na movimentação dos consumidores?
AO – O dólar teve, realmente, esse período de alta, mas, do ano passado para cá, a moeda americana tem caído, e a farinha de trigo teve uma leve baixa no seu preço, o que fez com que o preço do pão tenha se mantido estável. Então, não temos a expectativa de aumento de preço do pão, pelos menos por enquanto. E, como não teve esse aumento de preços, não houve alteração (nesse período) do consumo do pão, que tem se mantido, nos últimos dois anos, em média, estável.

OE – Como os empresários do setor tem reagido às dificuldades econômicas do País? E quais estratégias tem adotado para não ficar à margem do mercado?
AO – A panificação tem se reinventado. Nos últimos dez anos, ela tem ressurgida com novos serviços, e isso tem feito com que, realmente, ela tenha superado alguns momentos de crise. Antigamente, tínhamos a padaria como ponto de venda de pão e leite. Hoje, a padaria tem café da manhã, almoço, chá da tarde, buffet de sopas, massas feitas na frente do cliente, cardápio de sanduíches, cuscuz, tapioca – e eu costumo dizer que, ainda hoje, a padaria vende até pão. Esses serviços, que foram incorporados à padaria, têm feito com que ela tenha se sobressaído de certos momentos difíceis.

OE – Em 2016, por exemplo, foram registrados fechamentos de lojas?
AO – No ano passado tivemos fechamento de algumas padarias. Realmente tivemos um ano difícil, mas essas padarias que fecharam são mais as que foram recém inauguradas e de pessoas que não tinham habilidade, ainda, e não conheciam o segmento. Então, durante o momento difícil, por não conhecer o segmento, isso dificultou a operação dessas empresas, e algumas fecharam, sim.

OE – E de que forma o Sindpan-CE vem atuando para o fortalecimento setorial e ajudar as empresas a se manterem ativas e inovadoras?
AO – Como presidente do Sindpan-CE, assumi desde janeiro, pela primeira vez, mas estou como diretor do sindicato há seis anos. No setor de panificação, a gente tem feito, todos os anos, um planejamento estratégico e duas das principais linhas de atuação são a qualificação do empresário e de seus colaboradores, com a colaboração do Sebrae ­– que é nosso maior parceiro para fazer esse trabalho de qualificação –; e a outra linha de trabalho que nós fazemos, também, é a nossa central de compras, onde a gente forma grupos para gerar volume e a gente traz novas oportunidades de negócios para esse grupo, conseguindo valores mais interessantes em relação às matérias-primas e até outros itens, também.

OE – Além de insumos, dentro dessa atuação, que diferenciais a entidade, bem como o setor, em si, possui em relação a outros estados do Nordeste?
AO – O setor de panificação cearense, dentro da Federação das Indústrias do Estado (Fiec), tem uma grande atuação. Nós estamos muito atentos aos nossos associados – e temos, hoje, em torno de 288 associados –, bem como as demandas, e temos uma movimentação muito grande, de acordo com que o mercado vem pedindo. Estamos sempre junto à diretoria (da Federação) para traçar novos movimentos.

OE – No Ceará, quantas indústrias estão em atividade? E quantos empregos existem?
AO – Hoje temos, aproximadamente, duas mil indústrias. Em todos os municípios cearenses, pelo menos, existe uma padaria e o setor é bem representativo. O setor emprega, em média, por empresa, 15 empregados. Considerando duas mil padarias no Estado, deveremos ter 30 mil empregos diretos no Estado, sem contar os indiretos – pessoas que trabalham com fornecedores, matéria-prima, prestadores de serviços, fornecedores de equipamentos, entre outros.

OE – Como a realização de feiras e eventos voltados à panificação tem contribuído para dinamizar o setor?
AO – Todos os anos temos a Fipan (Feira da Indústria de Panificação, Confeitaria e Food Service), realizada sempre no mês de julho – que é a maior feira de panificação da América Latina, em São Paulo – e nós formamos uma caravana com cerca de 40 a 50 panificadores, todos os anos, para participar, onde estamos em busca de novas tecnologias e de matérias-primas para trazer ao nosso setor local. Temos, também, a Cearápão, uma feira local, que acontece no mês de agosto, na qual também temos expositores de todo o Brasil que vem trazer as novidades do setor nesse evento.

OE – Muitos empresários têm investido não somente em estrutura, mas no produto final, assim como variedades e diversificação de serviços. Isso é tendência de mercado?
AO – Isso é tendência mesmo. A população, as famílias estão bem menores, o tempo está mais corrido, o tempo de almoço diminuiu bastante, o deslocamento está mais difícil para a população almoçar em casa, então, houve uma mudança nos hábitos da população. Isso tem favorecido, bastante, o setor da panificação, que vem contemplando vários serviços e atendendo essas necessidades do mercado.

OE – Com esses avanços e evolução do setor, por outro lado, pesam nos preços finais ao consumidor. Isso não retarda o retorno do que foi investido?
AO – A padaria hoje, realmente, tem investido em sua estrutura. Temos padarias mais aconchegantes, climatizadas, refinadas e isso encareceu bastante a operação da padaria. Então, estamos com margens menores e isso demanda uma atenção maior do empresário para que sua atividade seja tranquila, gerando lucro.

OE – Quais as facilidades, quanto a linhas de crédito, para quem é empreendedor desse ramo?
AO – Temos o Banco do Nordeste, que trabalha com linhas de financiamento, ao setor, com taxas de juros excelentes e tem facilitado bastante. E a gente vê algumas pessoas que têm interesse no segmento, estarem buscando acesso a essas linhas de crédito para estar montando sua própria empresa, através do banco.

OE – Quais os principais desafios da panificação cearense?
AO – Temos, na panificação cearense, hoje, como grande desafio, a questão da operação. Crescemos bastante em nossa operação, através dessa diversidade de serviços que nós criamos, e isso tem gerado uma sobrecarga em nossas despesas. E, acredito, que a profissionalização do empresário, para saber medir essa operação e o faturamento, com despesas – para deixar a empresa balanceada e torná-la rentável –, tem sido o grande desafio da panificação atualmente.

OE – Quais as perspectivas do setor?
AO – Para este ano, a gente está segurando e (projetamos) manter o volume de vendas. Algumas padarias da periferia e interior tem sofrido um maior declínio das vendas e do fluxo de clientes, e o grande desafio é manter o cliente dentro da nossa loja, seja através de campanha, festivais, lançamento de produtos, enfim. A gente está buscando isso. Acredito que, se conseguirmos manter nossas vendas, para este ano, já seria significativo. Algumas lojas estão trabalhando para aumentar vendas, mas o setor está trabalhando para manter o que já conquistamos nos últimos anos (anteriores à crise).

Glossário

Tíquete médio. Resultado do total de vendas dividido pelo número total de clientes atendidos em determinado período.

Ressurgida. Surgida de novo; ressuscitada, revivida, renascida. No contexto usado, refere-se à inovação do setor, com a agregação de novos serviços, maior variedade de produtos e estrutura física diferenciada.

Incorporado. Que foi alvo de incorporação; que se tornou parte de (algo); o que se incorporou, que foi integrado ou anexado a; anexado, integrado.

Sobressaído. Destacado; transformado em algo ou alguém que está em evidência; distinguido entre os demais; estado de se salientar; tornar-se ou permanecer saliente, evidente.

Profissionalização. Ação ou efeito de profissionalizar ou profissionalizar-se. Processo de treinamento para obter certo nível profissional ou para alcançar maior habilidade num determinado trabalho; capacitação.

NONATO ALMEIDA
economia@oestadoce.com.br

outros destaques >>

Facebook

Twitter