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Um jornal à frente do seu tempo

quinta-feira, 27 de outubro 2016

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Filho de José Martins Rodrigues, o advogado Roberto Martins Rodrigues é testemunha ocular da História. Ele acompanhou o Pais em vários momentos, no Ceará, no Rio de Janeiro e em Brasília, onde o deputado federal Martins Rodrigues protagonizou importantes momentos, principalmente no final dos anos 1950 e 1960, com as drásticas rupturas institucionais do governo instalado em abril de 1964.

No governo Parsifal Barroso, quando Themístocles de Castro e Silva era o editor do Jornal O ­Estado, Roberto Martins Rodrigues assumiu uma diretoria do jornal.
Roberto estudou na Faculdade Nacional de Direito, uma escola pública de grande conceito, no Rio de Janeiro, na rua Moncorvo Filho, nº 8, perto da Central do Brasil. Estudou com de San Tiago Dantas, Hahnemann Guimarães (ministro do Supremo Tribunal), Evaristo de Moraes Filho (professor de Direito do Trabalho), Hermes Lima (também ministro do Supremo Tribunal). “Apesar da importância dos nomes, eram pessoas muito simples, sentavam com a gente, faziam parte das comemorações dos alunos”. Lá, ficou de 1948 a 1952, quando voltou para o Ceará.

Quem é Roberto Martins Rodrigues?
Eu sou filho de um dos fundadores, José Martins Rodrigues, que ao lado do seu irmão, Júlio Rodrigues, principal financiador dessa “aventura”, como o mesmo denominava, fundaram um jornal independente como O Estado.

Como foi a repercussão do lançamento do jornal, em 1936?
O jornal ganhou uma dimensão que mesmo hoje em dia, ainda seria extraordinária, porque ele saía com mais de 40 páginas no domingo, dois suplementos. Ele tinha um suplemento de política internacional que tratava da área econômica e os dois suplementos: Jornal do Lar, escrito pelas professoras da Cidade da Criança, que era uma escola de alfabetização infantil revolucionária, em 1938. Nasceu da cabeça da minha mãe, Zilda Martins Rodrigues , que tinha trabalhado como assessora do professor Lourenço Filho, o educador que fez a primeira reforma no ensino primário no Ceará, na década de 1930.
Então, além do Jornal do Lar tinha o Jornal dos Nossos Filhos, suplemento dedicado às crianças. Não apenas na parte de Pedagogia, mas na parte de entretenimento, com brinquedos para recortar e montar, etc. A Cidade da Criança, localizada no nentro de Fortaleza, teve enorme importância na área da Pedagogia. A escola acabou realmente quando meu pai se mudou para o Rio de Janeiro, deixando a política partidária. Minha mãe foi também e a Cidade da Criança deixou de existir.

O que motivou José Martins Rodrigues a fundar um Jornal?
Ele sempre foi jornalista, desde jovem, foi revisor, trabalhou em oficina de jornal, nos idos iniciais do que seriam depois os Diários Associados. Resolveu fundar o jornal, após a sua inserção nas campanhas da Liga Eleitoral Católica (LEC) ao lado do grande e saudoso Edgar de Arruda, que, mais tarde, foi candidato a governador e perdeu o pleito para Raul Barbosa. Meu pai, engajado na política, foi deputado estadual aos 22 anos. No governo Matos Peixoto, era líder do Governo, aqui, em Fortaleza. Então, achou importante ter um veículo de Comunicação.
À época, só tinha a Ceará Rádio Clube , fundada por um grande empreendedor, João Dummar. Depois, apareceram outros veículos, mas o Jornal O Estado nasceu da necessidade de dar o suporte a Liga Eleitoral Católica e defender as suas bandeiras. No plano nacional, era aliado a Dom Hélder Câmara.

Entre os fundadores do Jornal O Estado, estavam muitos advogados, não é?
Meu pai foi um dos fundadores do Instituto dos Advogados do Ceará, que foi a raiz da OAB, o Edgar de Arruda era o presidente e ele era o tesoureiro.

O que você fazia no Jornal àquela época?
Eu escrevia, ainda menino, para o Jornal dos Nossos Filhos, ligado pedagogicamente à Cidade da Criança — embora eu não tenha estudado lá, porque eu não tinha mais idade —, mas ela foi uma escola de formação cívica. A gente aprendia a cantar o Hino Nacional, do Ceará, estudava a Libertação dos Escravos no Ceará, estudava Literatura, aqui, do Ceará, eu lembro a exaltação da Raquel de Queiroz sobre a importância da Cidade da Criança. Ela foi uma grande amiga dos meus pais e elogiava a minha mãe por ter tido essa ideia da fundar a escola, que era uma escola realmente diferenciada, em modelo. Tinha campeonato de futebol de botão, futebol mesmo e os jogos eram transmitidos pela Ceará Rádio Clube.

Quando você retorna do Rio de Janeiro, onde graduou, assume uma posição no Jornal O Estado?
Foi no governo Parsifal Barroso. Antes, o Jornal pretencera a Cláudio Martins que, depois, passou adiante. Aí veio o governo Parsifal Barroso, o jornal dele e a redação era comandada pelo Themístocles de Castro e Silva e este me convidou para ser um dos diretores. Eu havia participado da campanha do Parsifal ao Governo do Ceará e ele era muito amigo do meu pai também nessa época, embora já estivesse no PTB. Um dos grandes dirigentes do PTB foi o sogro dele, o deputado federal Chico Monte, pai da dona Olga Barroso, mulher do Parsifal, a primeira dama da época. Era um jornal muito político na época, no sentido de política partidária.

O jornal defendia quais grandes bandeiras?
As bandeiras eram as do Partido Trabalhista Brasileiro —PTB, principalmente, que era o partido do Parsifal e o qual eu tinha simpatia. Eu nunca fui filiado, na verdade, ao PSD que era o partido do meu pai. Eu não aceitava certas coisas do partido. O papai já tinha deixado a política e me senti mais à vontade, mas como eu tinha uma queda para esse negócio de jornal — eu não estou dizendo que eu tenha sido jornalista, mas atuei bastante.

Quanto tempo você fica no jornal, nessa fase?
Durante todo o governo do Passifal, que começa em 1959. Depois, ele vendeu o jornal, achou que não valia a pena. Mais tarde, o Venelouis comprou e, realmente, deu outro tipo de dinâmica ao jornal.
E hoje, O Estado está consolidado. Graficamente melhorou muito. O meu tempo e do meu pai, o jornal era bicolor. Domingo, ele era azul e vermelho, foi uma novidade na imprensa do Ceará. Era bem pioneiro isso, foi uma mudança radical. O jornal era impresso em tipografia, usavam tipos móveis. Tinha umas amizades com o pessoal que trabalhava nas oficinas, a “cozinha do jornal”, tanto que as minhas maiores amizades não foram na advocacia. Mas, claro, que tenho vários amigos advogados, afinal, fui presidente três vezes e professor muitos anos — passei por várias gerações.

José Martins Rodrigues era muito influente no governo Menezes Pimentel.
Aqui, no Ceará, ele foi uma espécie de interventor interino, na doença do dr. Menezes Pimentel. Não havia vice-governador. Ele era secretário do Interior e Justiça e nessa condição, substituto imediato do governador, que era chamado de interventor. O Brasil, na época da ditadura do Getúlio Vargas, só preservou um governador, que foi o de Minas Gerais, era chamado governador Benedito Valadares. O resto era interventor.

Como José Martins Rodrigues, deputado federal, viu o endurecimento do governo militar?
Ele foi cassado em janeiro de 1969 e se tornou um grande amigo do coronel que o interrogou por 23 horas e meia, seguidamente, só podendo ir ao banheiro uma vez e tomar um copo de leite. Mas, ele dizia que os militares eram inocentes úteis, eles estavam certos e convencidos de que salvavam a Pátria do comunismo. Papai passou por uma evolução ideológica muito forte. Muito antes disso, ele era um homem de centro, não era de direita. Ele tinha horror ao integralismo, apesar de ter se tornado amigo do Plínio Salgado, que cansou de almoçar lá em casa, no Rio de Janeiro. Um outro grande amigo dele era o Paulo Sarasate, o líder da UDN no Ceará e um grande educador.

Jamais é uma palavra que não existe — como você gosta de dizer?
Não funciona nem no amor nem na paixão nem na política. Pode até dizer jamais, mas não pode por em prática. Eu queria agradecer pela honra de ser entrevistado por um jornal pelo qual tenho muito carinho, principalmente devido ao que ele representou na minha vida de menino, de jovem, de adulto e também porque, hoje, ele está entregue a uma família que eu quero muito bem, admiro — Venelouis e Wanda são pessoas que eu gosto muito.
Entrevistei Roberto na terça-feira, 12 de maio de 2015, em Fortaleza, para a pesquisa que será publicada em livro

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