domingo, 16 de junho de 2019.
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A maternidade

sexta-feira, 24 de maio 2019

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Cláudia Mesquita é policial civil no Estado do Ceará. É comum na profissão dela, cumprir plantões até mais tarde da noite na delegacia. No entanto, o incomum ocorrera por volta das 23 horas do dia 17 de março de 2015, após a chegada dos colegas de profissão com uma mulher e um bebê recém-nascido. A primeira pessoa procurada pelos policiais foi Cláudia, para orientá-los sobre os encaminhamentos para acolhimento urgente daquela criança. Cláudia compartilha que até aquele momento não havia vivenciado nada parecido com a entrega de uma criança para adoção na polícia, ainda mais àquela hora avançada da noite. A primeira conversa que impetrou com a mulher responsável pela criança foi porque ela procedera daquela maneira. Ela ouviu que o bebê tinha apenas 17 dias de vida e ele havia perdido recentemente o irmão gêmeo por falta de condições psicológicas e econômicas da família biológica para criá-los.
A situação ocorreu no 2º Distrito da Polícia Civil em Fortaleza e a criança deveria ser imediatamente acolhida em um espaço de proteção provisório, conforme determina a legislação brasileira. As horas da noite estavam avançadas e não havia naquela situação oportunidade para a abordagem familiar primária realizada pelo Conselho Tutelar com a família biológica. O Conselho Tutelar é o órgão responsável pela realização dos encaminhamentos protetivos sob situações de negligências contra crianças e adolescentes. Cláudia conseguiu autorização do órgão para levar a criança para a instituição Casas Abrigo no bairro Pirambu em Fortaleza, no entanto, ao primeiro contato com o local, os funcionários informaram que o abrigo estava lotado e não havia vaga para a criança.

PROFUNDA COMPAIXÃO
Claudia moveu-se de profunda compaixão pela criança e foi firme à manifestação do direito que resguardava o bebê à garantia da sua integridade física e emocional, por tanto, a urgência do seu acolhimento naquela instituição porque já aproximavam-se às duas horas da madrugada. Assim, a criança foi recebida na instituição Casas Abrigo. Os desafios daquela noite incomum de trabalho enfrentados por Cláudia ocorreram com um propósito superior: o chamado de Cláudia para ser mãe havia chegado! “Eu não sentia o desejo de ser mãe até aquele momento. A maternidade através da adoção surgiu na minha vida com uma profunda convicção a partir dali.”, compartilha Cláudia.
A aproximação com a instituição Casas Abrigo durante as visitas que Cláudia fizera a criança acolhida e depois a participação na organização não-governamental Acalanto, onde foi orientada sobre a adoção de crianças no Brasil cooperaram para sua inscrição no Cadastro Nacional de Adoção (CNA) naquele mesmo ano. Cláudia conheceu realidades que envolvem a vida das crianças em estado de abandono vulnerável e na maioria das vezes provocado pela desinformação dos genitores que desejam entregar seus filhos para adoção e não sabem como fazê-lo.
A habilitação de Cláudia no Cadastro Nacional de Adoção (CNA) saiu em outubro de 2015, seis meses após ter iniciado o processo de inscrição. O desejo dela, adotar a criança que ajudou a socorrer naquele noite em março de 2015 era real, mas isso não se concretizou. “Muitas vezes, a gente quer algo que não é pra gente!”, compartilha Cláudia. Em dezembro de 2016, Cláudia desistiu de acompanhar a criança na instituição Casas Abrigo em Fortaleza. A oportunidade da maternidade estava reservada mais à frente para ela. Na organização não-governamental Acalanto, Cláudia recebeu suporte e orientações importantes para continuar no caminho da adoção para a maternidade.
“O dia vai acontecer e a gente tem que ficar esperando com expectativa”, define Cláudia sobre o caminho da maternidade pela adoção. No dia 15 de julho de 2017, Cláudia recebeu a ligação do Setor de Adoção no Fórum Clóvis Beviláqua em Fortaleza para conhecer uma criança, menino, de três anos de idade que estava no Abrigo Casa de Jeremias. Cláudia chegou ao local e encontrou Gabriel concentrado na montagem de um brinquedo. Um menino líder acolhedor, feliz entre as crianças! “Nossos olhares se encontraram no tempo pleno preparado para nós, mãe e filho! Eu sentei no chão e perguntei se podia ajudá-lo a montar o brinquedo enquanto outra criança perguntou para ele se eu era a mãe dele! Internalizamos a nossa filiação de almas imediatamente! Eu estava diante do meu filho! Eu me tornei mãe ali mesmo!”, emociona-se Cláudia ao compartilhar.
As afinidades entre Cláudia e Gabriel impressionaram a todos durante a construção do vínculo entre eles. Os dois brincavam espontaneamente! Gabriel é um menino inteligentíssimo, confidencia Cláudia. As naturezas harmoniosas de mãe e filho descortinavam-se maravilhosamente! Gabriel já respondia com segurança e propriedade quando questionado: “Minha mãe”, lembra Cláudia, quando Gabriel falou para um amiguinho no abrigo sobre quem ela era.

RECONHECIMENTO
DE ALMAS
“Eu estou feliz. A mudança de vida na maternidade é desafiadora, implica em adaptações, mas eu estou feliz! Tudo é um processo de reconhecimentos de almas entre eu e o meu filho com aprendizados, renúncias, vitórias e amor. Meu filho é teimoso (Cláudia sorri e chora emocionada), mas, esse menino foi feito pra mim! Se eu tivesse um filho biológico não seria tão perfeito, tão identificado com a minha natureza como é o meu Gabriel. A essência da bondade cultivável, presente em cada pessoa, é um dos maiores presentes de Deus para nossas vidas!”, confidencia Cláudia.
Cláudia recebeu a guarda provisória de Gabriel em outubro de 2017 e a guarda definitiva seis meses depois, em abril de 2018. A primeira pergunta de Gabriel em seu lar, foi sobre aquele quarto, preparado com tanto amor, para ele, ser todo dele! “Esse quarto é meu, mamãe, todo meu?! Cláudia compartilha que a alegria dele por estar em casa, no quarto dele, brincando com ela, sorrindo, feliz, faz transbordar de contentamento todos os lugares da casa e de suas vidas!

CAROLINE MILANÊS
Jornalista

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