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sexta-feira, 25 de maio 2018

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frase que diz “para tudo tem um tempo” sempre faz sentindo na vida de alguém. Acredite: o que ocorre na sua vida não é de forma adiantada ou atrasada. É no tempo certo. E há tempo para tudo, diria outra frase. Há tempo de plantar. Há tempo de colher. Há tempo de alegria. Há tempo de tristeza. E por aí vai. Assim é a vida, tudo ao seu tempo. Poucas situações traduzem essa frase com tamanha perfeição como a história da Ana Rayla, de sete anos. Ela chegou ao abrigo recém-nascida, abandonada pelos pais que jamais a procuraram. O tempo foi passando, ela foi crescendo e aos cinco anos precisou mudar de abrigo tamanha institucionalização. A menina achava que o abrigo era a casa dela.

Tornou-se uma criança rebelde e de difícil convivência. Passou por quatro tentativas de adoção, todas sem êxito, pois ela não conseguia aceitar uma família em sua vida. Aguém duvida do prejuízo que essa menina teve? Mas, há tempo para tudo, lembra?
Certo dia do primeiro semestre de 2017 entra no abrigo Lar Santa Geane a professora Semiramis Maria Magalhães. Ana Rayla estava sentada no chão desenhando. Sob os olhares da equipe interdisciplinar da instituição e do Fórum Clóvis Beviláqua, Semiramis sentou-se ao lado dela e perguntou o que desenhava. De pronto, Ana Rayla respondeu: eu, você e meu pai.

Surpresa, Semiramis então perguntou se podia se pintar e a menina disse sim. E de pronto perguntou: e quem vai desenhar o meu pai? A professora respondeu mostrando a foto do filho de 14 anos. Em seguida Ana Rayla perguntou: “é meu irmão?”. Semiramis retrucou: “você quer que seja?”, e de cara ouviu que sim. Pronto. Aquele sim, naquele dia, mudou a vida das duas para sempre.
De uma criança que não aceitava outra família em sua vida, Ana Rayla passou a receber Semiramis como se a conhecesse há anos. Não demorou para chamá-la de mãe. Desde aquele dia a vida das duas mudou completamente. Porque para tudo tem um tempo.

2016
A professora Samiremis Magalhães levou os documentos ao Fórum Clóvis Beviláqua decidida a adotar uma criança de zero a três anos no início de 2016. Após participar do curso psicossocial, resolveu ampliar o perfil e trocou para de zero a sete anos. Em junho daquele ano recebeu a habilitação e foi inserida no Cadastro Nacional de Adoção. Em janeiro de 2017 recebeu a ligação que mudaria a sua vida. Mas havia um desafio: conquistar o coração de Ana Raya, que já havia passado por quatro tentativas de adoção, todas frustradas.

“Eu tive medo, deu um frio na barriga, mas eu disse que ia tentar. Fui conhecê-la e a partir daí a nossa história mudou completamente. Passei a visitá-la com frequência e trazer para casa nos fins de semana. Sempre que precisava levar de voltar pro abrigo ela tinha febre e chorava. A partir de então entrei com o pedido de guarda provisória”, conta a professora.

Ana Raya não sabia ler nem escrever, mas aos poucos foi aprendendo, se desenvolvendo, se adaptando à nova rotina e à nova família. “Ela sempre me diz que não quis outra família porque estava me esperando”. Em junho deste ano faz um ano do convívio diário entre as duas.

“Ela não teve resistência e
logo viu no meu filho a figura
do irmão. Ele a protege, cuida, me ajuda. Tivemos a fase de testes em que ela chorava para fazer a lição de casa, tomar banho, cumprir as tarefas da casa, mas aos poucos fomos todos, juntos, superando os percalços”, relata Semiramis.

Ana Rayla é uma das histórias que ajudaram a engordar a estatística das adoções tardias no Ceará nos últimos dois anos.
Para o promotor de Justiça da 6ª Promotoria de Justiça da Infância e Juventude de Fortaleza, Luciano Tonet, “deve-se ter em vista que a adoção é um processo burocrático, mas é necessário que assim o seja, para proteção da criança e também dos pretendentes. Por fim, deve-se lembrar que as crianças que estão no cadastro nacional de adoção estão acolhidas em entidades de acolhimento institucional e são provenientes de situações de vulnerabilidade, com inúmeras violações de direitos. Por isso, é preciso de tempo e projetos específicos para que essas crianças convivam com os possíveis pretendentes à adoção e estabeleçam com estes fortes e duradouros vínculos afetivos”.

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