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“Não queríamos escolher”

segunda-feira, 19 de dezembro 2016

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Às vezes, mesmo quando o destino sussurra desenhar uma história triste, quando os prognósticos não são bons, mesmo que as chances pareçam ser poucas, ou que o filme ameace ter um roteiro em descompasso, a vida pode chegar e impor uma outra história, um novo roteiro de um filme que de repente tinha tudo para não ser feliz, mas será. Assim é a história de vida da pequena Maria Valentina, de dois anos. Com paralisia cerebral, sem andar, falar ou sequer sentar sozinha, a menina vivia dentro de um berço em um abrigo até conhecer a professora Nathália Martins de Oliveira e o corretor Francisco Hélio Pereira da Silva. “Nos amamos desde o primeiro momento”, diz a mãe ao recordar o dia do primeiro encontro.
Tudo começou quando o casal decidiu adotar uma criança após seis anos de união.

No momento do cadastro, nenhuma exigência. “Se eu tivesse um filho biológico não poderia escolher cor, sexo, se viria com saúde ou não, porque escolheria um filho adotivo? Deixei Deus escolher. Não queríamos escolher, queríamos ser escolhidos. Ela já estava no nosso destino desde o ventre da mãe biológica”, diz Nathália ao recordar o início da história que começou a mudar a sua vida.
O telefone tocou no dia 28 de abril deste ano. Do outro lado da linha o anúncio de que uma criança havia sido vinculada ao seu cadastro. Em seguida, a notícia de que essa criança era especial: aos dois anos não andava, não falava, não comia, a menos que fosse alimento pastoso. “Naquele momento o meu coração bateu muito forte. Quando ouvi o nome dela já sabia que era a minha filha. Quis visitá-la no mesmo dia, mas só pudemos ir no outro. Logo cedo da manhã estávamos no abrigo. Quando a equipe começou a falar sobre ela já senti que estava com a minha filha nos braços”.
Não demorou muito para a menina aparecer no corredor nos braços de uma assistente social. “Quando a vimos eu tive uma sensação de o médico estar mostrando para mim a minha filha como se a tivesse tirado de mim. Quando ela viu o meu esposo, virou e deu os braços para ele. Naquele momento não tinha mais quem a tirasse da gente”, diz uma mãe efetivamente realizada.

A partir daquele momento, iniciou-se uma batalha para levar logo a filha para casa. O processo de adoção de Maria Valentina durou quatro meses. “Eu gostei do processo de ir conhecendo a minha filha aos poucos. Passei dois meses indo todos os dias ao abrigo”, diz Nathália. O amor que a menina recebeu dos pais adotivos a fez transformar a vida que tinha todo um roteiro escrito para ser triste. De uma criança que não falava, não andava e não comia direito, Maria Valentina hoje é uma criança que anda segurando os móveis da casa, cresceu 14 centímetros, fala ‘papai’, ‘mamãe’, ‘vovó’ e ‘neném’. Brinca, sorrir, pede água. É porque o amor transforma. E foi esse amor dos pais adotivos que transformou o roteiro de vida da menina que, por causa da sua especialidade, tinha tudo para não ser exitoso.
Atualmente, a pequena recebe acompanhamento profissional com terapeuta ocupacional, psicólogo, fonoaudiólogo, neuropediatra e faz sessões de estimulação audiovisual. Após os três anos, os pais pretendem levá-la para a equoterapia, um tipo de terapia com cavalos que serve para estimular o desenvolvimento de crianças.
A mãe de Maria Valentina reconhece que as dificuldades são grandes, mas o amor a faz superar todas elas. “Passaremos um Natal completo, pois a minha filha veio completar a nossa família de uma forma indescritível”, diz.
A menina é uma das 90 crianças que conseguiram um lar em 2016 no Ceará. O número jamais tinha sido tão expressivo. Por mais que ainda não seja o ideal, pois ainda há mais pretendentes em busca de adotar do que crianças disponíveis para adoção, os dados são animadores e representam uma mudança de vida para os pequenos que vivem espalhados pelos abrigos da cidade. A história de Maria Valentina mostra mais uma vez o poder do amor. Porque o amor transforma.

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