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O amor não enxerga, não ouve e nem vê diferenças

segunda-feira, 19 de dezembro 2016

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Em todos os casos, a adoção é um ato de amor. É o fato de alguém passar a amar outro de forma desmedida mesmo sabendo que esse outro não carrega nas veias o mesmo sangue. É porque para o amor, isso é só um detalhe. O amor não enxerga, não ouve e nem vê diferenças.

Em outras vezes é bem possível que o amor, para florescer, precise apenas de um acaso. E o que esperar de um acaso? Para a menina Andressa, de 9 anos, tudo. O acaso mudou completamente a sua vida para melhor depois que o seu caminho cruzou com o do casal Roberto de Sousa e Alexandrina Fernandes. A menina chegou à vida dos dois levando mais do que amor, mas esperança e a certeza de que a adoção é um dos caminhos para a felicidade e para o amor verdadeiro.

Ele, que é intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras), e a esposa, professora, tiveram os primeiros contatos com a menina em 2014, no local onde trabalhavam: o Colégio Instituto dos Surdos, em Fortaleza. A garota, que vivia no abrigo infantil Casa de Jeremias, chegou à escola para cursar o 1º ano do Ensino Fundamental. Como não tinha turma à tarde, ela ficou como ouvinte junto com as crianças do 2º ano.

E foi esse o acaso que uniu os três para sempre. “Eu falo sempre que a Andressa é uma providência de Deus”, conta o agora pai da menina. Logo após os primeiros contatos, Roberto sentiu em seu coração o desejo de adotar Andressa. O que ele não imaginava era que a esposa também sentiu o mesmo desejo. Alexandrina conta que a criança chegou à sala de aula muito arredia e se escondeu debaixo da mesinha escolar.

O motivo para o comportamento solitário talvez seja a sua história de vida: abandonada pelos pais, usuários de drogas, Andressa chegou ao abrigo pelas mãos do Conselho Tutelar. A mais velha de três irmãs que também foram levadas ao acolhimento, a menina tem deficiência auditiva e estava disponível para adoção. Toda essa situação comoveu Roberto, que a partir daquele momento não tirava da cabeça a ideia de adotar.

“Inicialmente, fiquei pensando como uma mãe pode abandonar um filho daquela forma. A menina era muito carente do ponto de vista de sociabilidade, ficava sempre de cabeça baixa, não mostrava vínculo com os outros. Quando soube da situação, imaginei como seria a vida dela, qual seria a perspectiva. Então, pensei em adotar para dar uma vida melhor, de cuidar mesmo, com carinho”, ressalta a mãe. A professora foi para casa e, à noite, o esposo teve a iniciativa de falar sobre o assunto. Somente nessa conversa, os dois descobriram que se tratava da mesma criança.

Busca pela adoção

Certos de que queriam a Andressa como filha, Roberto e Alexandrina procuraram informações sobre adoção. “No Fórum, preenchemos o cadastro e escolhemos o perfil: uma menina, com cerca de sete anos de idade e deficiência auditiva. Para a nossa sorte, apenas a Andressa se encaixava”, conta ele.

O casal afirma que o processo foi mais rápido do que imaginava. No dia 23 de dezembro de 2014, teve início o período de convivência, no qual ficava com a menina de quinta-feira a domingo. Dois meses depois, veio a guarda provisória e, em julho de 2015, saiu a guarda definitiva.

Com isso, registraram Andressa com o sobrenome deles. Roberto defende que o procedimento de adoção poderia ser menos burocrático, mas entende o cuidado do Judiciário “porque se trata de uma vida”, diz.

O começo em família

Os pais contam que a adaptação de Andressa ocorreu mais fácil do que pensavam. No começo, tinha dificuldades em seguir a nova rotina, com horários diferentes para dormir e ir ao colégio, mas aos poucos as dificuldades foram sendo superadas, junto com os pais. “São dificuldades normais para uma criança que viveu toda essa situação. O mais gratificante é vê-la superando todas as barreiras a cada dia”.

As duas irmãs da Andressa também tiveram a felicidade de ganhar uma família. As três mantêm vínculo e costumam se encontrar para brincar, ir à praia. “Ela reconhece que foi adotada, lembra de algumas situações quando vivia com a família biológica, mas isso não atrapalha em nada a nossa relação. Ela nos respeita e nos aceita como pai e mãe, que é que somos”, diz Roberto.

Vida nova

Dois anos depois de ganhar a nova família, Andressa, como sempre, mostra capacidade de resistir às adversidades da vida e de buscar ser feliz. Totalmente adaptada aos familiares, amigos, vizinhos, professores e colegas de escola, a menina tem uma rotina bem intensa.

Estuda em tempo integral em instituição voltada a deficientes auditivos, além de ter acompanhamento de psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo, terapeuta ocupacional, psicomotricista e fisioterapeuta. Todos esses profissionais são necessários para que a menina consiga ter o melhor desenvolvimento físico e intelectual, por conta do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (DTAH).

A mãe conta que a filha não sabia beijar, abraçar. Hoje, consegue fazer isso, inclusive diz que ama os pais diariamente e tem o costume de elaborar cartões com declarações. De uma adoção tardia, aliada à deficiência auditiva, o encontro de Andressa com Roberto e Alexandrina é um dos acasos mais bonitos que a vida pode proporcionar. É a prova de que para o amor não existem barreiras. É a certeza de que a vida pode mesmo traçar os mesmos caminhos para pessoas tão distintas, unir corações e quebrar paradigmas. Porque o amor não enxerga, não ouve e nem vê diferenças. Ele apenas une e transforma.

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