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Movidos pela vontade de mudar a realidade de crianças e adolescentes da periferia

quarta-feira, 13 de abril 2016

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Anatália Batista
anatalia@oestadoce.com.br

Mudar a realidade de crianças e adolescentes, que moram em áreas periféricas de altos índices de violência, homicídios, falta de políticas públicas e fácil acesso as drogas, é tarefa difícil. Mas, não impossível, para quem acredita na força do esporte, da arte e da cultura como instrumentos de transformação.

Eles deixam seus compromissos, conciliam os horários de trabalho e estudo para doar um pouco de tempo e de conhecimento àqueles que só precisam de uma oportunidade para acreditarem em seus potenciais. Em três bairros pobres de Fortaleza, três projetos sociais se sustentam no voluntariado e dão nova perspectiva de vida aos meninos da periferia. Eles atendem às comunidades do Pirambu, Vicente Pinzón e Genibaú, cujo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), são, respectivamente, 0,229; 0,331 e 0,138.

No Pirambu, Projeto  Aspas dá lições de  cidadania através  do surf e do skate
Surfar é sagrado. É assim que dizem os surfistas que fazem do mar o seu lar. Ter o mar no quintal de casa é privilégio. E com boas ondas, então. Para um grupo de meninos que mora no Grande Pirambu, descer até a praia da Saquarema, no calçadão da Avenida Vila do Mar, carregando as pranchas debaixo do braço, é a melhor hora do dia. A alegria no rosto entrega. Antes de entrar na água, instruções e alongamento. Depois disso, as ondas parecem brinquedo. Através das aulas de surf e de skate, a Associação de Surf do Pirambú e Adjacências (Aspas), tem contribuído em tornar crianças e adolescentes da região em campeões de cidadania.

O amor ao surf, ao skate e à comunidade foi o que motivou dois amigos, no Pirambu, a idealizarem o projeto social com o propósito de inserir os jovens no esporte, dando-lhes uma nova perspectiva de vida. Em 2012, nascia a Aspas. A vontade dos amigos Jean Carlos e Cássio Weslley logo foi abraçada por mais 12 voluntários do bairro. A associação ganhou uma sede no centro social urbano do bairro Cristo Redentor, onde eles são atendidos todos os dias.

“Tanto na área psicológica, como de família, de estudo e do próprio surf, a gente percebe que eles melhoraram muito. Em todos os aspectos, incluindo questão de drogas e violência, nós trabalhamos com eles. Temos um aluno que era deprimente, tímido, não tinha visão de nada, nenhuma perspectiva e, hoje, é o melhor aluno dentro do projeto”, destaca Jean, presidente do Aspas.
Cássio, o vice-presidente da associação, descreve que o foco é manter uma relação de diálogo e amizade com os participantes. “A gente acaba conversando com eles coisas que eles não comentam com os pais nem com os professores”, ressalta. Os próprios alunos confirmam. João Kléber, 15 anos, está no 1º ano do ensino médio e afirma: “Através das atividades, das experiências, dos conselhos que nos dão, o projeto mudou minha vida”. Já Gabriel Inácio Silva, 16, a paixão pelos dois esportes começou desde os dez. No projeto, ele sonha ser skatista profissional. “Eu gosto de vir, se eu ficar em casa, fico sem fazer nada. Aqui, tenho meus amigos, a gente se diverte e aprende”, disse. João e Gabriel praticam tanto o surf como o skate.

Às segundas e quartas, os alunos dedicam-se aos ensinamentos teóricos e práticos do skate. Às terças e quintas, caem no mar para as aulas de surf, e às sextas são dedicadas à rodas de conversas e debates, onde abordam temas de família, direitos humanos e como se comportar em público. Além disso, eles têm cursos de shaper e design gráfico para consertos e fabricação de pranchas e, em parceria com o Cuca Barra do Ceará, participam de cursos profissionalizantes. Os atendidos do Aspas também realizam, dentro da comunidade, ações sociais voltadas para a terceira idade e preservação do meio ambiente.
Para fazer parte do projeto, é preciso estar em sala de aula. Atualmente, o projeto atende 59 crianças e adolescentes, de 12 a 18 anos. Conforme Jean Carlos, o Aspas conta com o apoio da Secretaria Municipal de Cidadania e Direitos Humanos (SCDH) e da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas de Juventude. No entanto, financeiramente, se mantem com doações, rifas e bazares entre a comunidade, para oferecer um lanche, todos os dias, e o material necessário para prática dos esportes. Necessita constantemente de doações de pranchas, skate, parafinas e protetor solar. “Temos uma amizade tão grande com eles, que são alunos fiéis. Faça chuva, faça sol, estão aqui”, concluiu oi presidente do Aspas.

Atletas de Futuro, no Genibaú, já revelou talento nacional no futebol
A escolinha de futebol Atletas de Futuro é nova. Surgiu há dois anos, idealizada pelo estudante de Educação Física, Tiago Xavier. O sonho de poder tirar da vulnerabilidade os meninos da Comunidade do Capim, no Genibaú, e bairros adjacentes, dando aulas de futebol, alcançaram novas dimensões após a construção da areninha, de mesmo nome do bairro. No início, eram 30 meninos, hoje, já atende 180, de sete a 17 anos.

“Aqui, no bairro, existe a Comunidade do Capim. Fica a três quadras da Areninha do Genibaú. Lá, tem uma carência muito grande de esportes”, justifica Tiago. Com a areninha, entregue pela Prefeitura de Fortaleza, os moradores, que convivem com a falta de infraestrutura e vivem cercados de lixo, veem no equipamento uma esperança. Esperança essa que Tiago, sozinho, luta para conquistar mais apoio ao projeto. “No momento, é mantido só por mim e só eu dou todas as aulas. Conto somente com o apoio dos pais dos alunos. Eles ajudam no que podem e não cobro nada para treiná-los”, disse.
Os treinos do Projeto Atletas de Futuro acontecem todos os dias e têm a duração de duas horas. Dois dias no campo e dois na quadra de futsal. Segundo Tiago, de dois em dois meses, é realizado uma reunião com os pais e alunos. “Falamos sobre a conscientização contra as drogas, violência. Como eles não querem perder o esporte que mais gostam, que é o futebol, se afastam das más amizades. A questão da escola também é cobrada, tem que estudar”.

Victor Manoel, de 14 anos, é um apaixonado por futebol. “Só fico ausente quando estou doente”, diz ele. O sonho de Victor é ser um jogador de futebol profissional. Atualmente, ele joga na posição de centroavante. “Gosto muito de vir, porque tira a gente de casa e faz a gente se exercitar também. É muito bom”, falou e logo correu para o campo.

O projeto já levou oito atletas para jogar no Sumov Atlético Clube, time de destaque do futsal de Fortaleza, onde participaram do campeonato cearense. Também revelou o jogador Gabriel Morais, que hoje joga no Criciúma. Conforme Tiago, ao notar que Gabriel tinha talento, o incentivou a realizar testes para times de fora e o acompanhou em todos. Ao ver Gabriel passar pelos times do Santos, Juventude e, agora, Criciúma, Tiago se sente realizado. “A gente se sente bem, feliz. Até hoje o Gabriel reconhece meu incentivo e me agradece pela força e motivação”, disse o treinador, que faz pelos outros, o que fez com Gabriel e que pretende, ainda, estender a escolinha para as meninas.

O Atletas de Futuro não tem apoio de nenhum órgão do poder público. Tiago se prepara para oficializá-lo em associação e, assim, tentar concorrer a editais na Prefeitura de Fortaleza. Para custear o projeto, o professor realiza bingos e rifas na comunidade. Com 180 alunos e uma única bola para treinar, ele desabafa: “oportunizar ocupação para esses jovens é prioridade nesse momento em nossa sociedade, peço aqui, humildemente, apoio, para continuar com nosso trabalho, pois trabalhar somente com uma bola, e que a mesma está quase se resgando, não dá”.

Mirante de Fortaleza torna palco de arte e cultura
para o Projeto Enxame
No Morro de Santa Terezinha, no Vicente Pinzón, o Projeto Enxame promove ações educativas através de oficinas de rap, break, grafite, teatro, artes plásticas, oficinas de DJ, contação de histórias, fotografia e eventos culturais à comunidade do entorno do Mucuripe. Fundado pela socióloga Glória Diógenes, em 2001, hoje, é mantido por equipe de educadores locais, presidido por Valber Alves e na vice-presidência, Kleiton de Lima. Com mais 12 voluntários, eles atendem ao público entre 13 e 18 anos.
É ali, no ponto mais alto da cidade, na Praça do Mirante, local que, antes dos inúmeros prédios levantados, revelava uma visão panorâmica do mar, considerada uma das mais lindas, onde os encontros acontecem.

Em geral, o perfil dos participantes compreende em histórias de vidas marcadas pelo abuso sexual, uso de drogas, pichações e inseridos em famílias, quase sempre, sem a presença de um dos pais. “O Enxame atende aos desadaptados. Este é o perfil dos jovens atendidos no projeto. Os que se sentem sem voz e sem vez nos espaços da família, da escola e/ou da cidade”, explica o secretário executivo, João Antonilson.

O Enxame já realizou a gravação de um CD e de um videoclipe. Promove shows, peças teatrais e mostras de artes dentro da comunidade. Também há trabalho voluntário de aulas de bodyboard, na Praia de Iracema. Mas, o projeto está, atualmente, sem sede. Antes, era desenvolvido com a premiação de edital da Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor), porém, no momento, sobrevive do esforço dos voluntários. “Infelizmente, devido à falta de recursos, tivemos que entregar a casa onde era a nossa sede”, diz João.

O projeto venceu o Concurso Cidadão 21, realizado pelo Instituto Ayrton Senna, em 2002, o qual tornou-se parceiro, e conquistou, em 2008, o prêmio de Ponto de Cultura de Fortaleza. Em 2010, foi realizado o curso “Museu e Cidadania Cultural”, em parceria com o Memorial da Cultura Cearense, onde foram formados 20 jovens que iniciaram o mapeamento cultural da comunidade do Mucuripe, o qual teve como resultado a montagem de uma exposição denominada “Mucuripe no Mar das Memórias”, que permitiu uma reflexão sobre as vidas dos jovens e os cotidianos da comunidade em diversos aspectos: político, econômico, cultural, religioso e estético dissipados em múltiplos espaços eleitos no recorte da pesquisa.

Com mais de 10 anos de existência, o Enxame tem se consolidado como um equipamento cultural que proporciona à comunidade do Mucuripe um processo de auto-conhecimento/reconhecimento, identidade cultural e a possibilidade de implantar o museu comunitário do Mucuripe.

Serviços
Para conhecer mais sobre os projetos, acesse as fan pages no Facebook e veja a galeria de fotos no portal O Estado.
www.facebook.com/surfaspas
www.facebook.com/atletadefuturo
www.facebook.com/ProjetoEnxame

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