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Cresce número de partos “cesários” no Ceará

segunda-feira, 25 de julho 2016

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No Ceará, no período de 2010 a 2014, o aumento de partos cesáreos realizados no Sistema Único de Saúde (SUS) foi mais de 10 mil registros. De acordo com dados da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), em 2010, foram registrados 63.038, em 2012 saltou para 70.271; 2014 terminou com o registro de 73.991, o que representa 57,8% dos partos realizados em todo o Estado naquele ano.

Com o avanço das cesáreas, o quantitativo de partos normais realizados no SUS vem diminuindo a cada ano. Em 2010, foram realizados 65.476. Em 2011, baixou para 61.083; três anos depois o número reduziu para 53.774, representando apenas 42% dos 128.013 partos realizados naquele ano.
Em entrevista ao Jornal O Estado, o obstetra Elson Almeida, afirma que a escolha pelo parto cesáreo é cultural. “O que vejo na prática é que a maioria das pacientes chega ao consultório com a preferência pelo parto cesáreo, raras algumas exceções. Essa é uma cultura que não se muda do dia para a noite, mesmo com o crescimento dos esclarecimentos”.

Associado a isso, o obstetra cita que a maioria dos hospitais, tanto públicos quanto particulares, não tem estrutura física adequada para atender os partos normais que chegam e o parto cesáreo acaba sendo a melhor opção. “Para um parto normal é preciso que o hospital disponibilize um quarto individual, com mesa adequada e os outros confortos necessários que a mulher precisa para se sentir segura”, observou. Segundo Elson Almeida, em Fortaleza, os únicos hospitais públicos que oferecem essa estrutura especial é a Maternidade Escola e o Gonzaguinha de Messejana.

Epidemia
Para a fundadora da ONG Parto Normal em Fortaleza, Priscilla Rabelo, esse crescimento no número de cesárias e, a consequente redução no número de partos normais, reflete uma realidade de todo o País. “O Brasil vive uma epidemia de cesarianas que chama atenção. Esta é uma questão de saúde pública”. Priscilla defende que o parto cesáreo só poderia ser realizado por indicação clínica. “A cesárea tem riscos tanto para mãe quanto para o bebê. É considerado problema de saúde pública, pois esse tipo de parto reflete na saúde individual das mães e bebês e da população como um todo, já que aumenta o índice de prematuridade, que é provocada com a retirada do bebê antes da hora. Essa medida provoca aumento das despesas públicas, com gastos de UTI neonatal, tanto na saúde suplementar (convênios) como no sistema público”, explicou. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 25% dos óbitos neonatais e 16% dos óbitos infantis no Brasil estão relacionados à prematuridade.

Cada caso
Sobre os prós e contra de cada parto, Elson Almeida destaca que cada caso deve ser avaliado pelo médico e conversado com a gestante. “O parto cesáreo é um ato cirúrgico e, com isso, tem todas as complicações inerentes ao ato. O parto normal já é diferente, mas há casos que a mãe pode preferir o normal, mas há problemas que podem complicar e, por isso, é indicado a cesárea”. Entre os problemas, ele destaca o problema de saúde na mãe. “Se a mãe tem pressão alta ou doença grave no coração ela corre sérios riscos se optar pelo normal. É durante o pré-natal que fazemos as orientações”, destacou.

Mudança
Diante do quadro, Priscilla afirma que é necessária uma tomada de consciência por parte das mulheres para que a realidade mude. “A medida que tiverem conhecimento real do benefício, as pessoas vão começar a pensar na perspectiva de mudar a opinião. Mas, também é importante que os médicos passem a indicar o parto normal”, disse Priscilla, destacando que cerca de 50% das mulheres mudam de ideia durante o pré-natal. “Elas iniciam a gestação preferindo o parto normal e, ao longo da gravidez, seja por influência médica ou familiar, mais de 50% das mulheres são levadas a mudar de ideia”.
Larissa Gurgel, 24, passou pela experiência do parto normal há um mês. “Escolhi o parto normal, pois pensava na recuperação que seria mais rápida, além do medo de submeter o bebê e a mim a uma anestesia e o enfrentamento de uma cirurgia sem necessidade. Porém, ao mesmo tempo sentia medo de não aguentar a dor”.

Segura de sua escolha, Larissa contou que passou a ter mais certeza devido ao apoio de seu obstetra durante o pré-natal e os conselhos de sua família. “Conversava bastante com minha família sobre o assunto e sempre me encorajavam a escolher pelo método normal. Meu médico também deu todo o apoio e me parabenizou pela escolha. Esses quesitos foram determinantes”, disse Larissa.

Mitos
Priscilla Rabelo destacou que ainda existem muitos mitos que rodeiam o parto normal. “Alguns dizem que se o cordão tiver laçado no pescoço do bebê não pode ser normal, ou se a mulher já tiver tido o primeiro filho por parto cesárea, não pode ter pelo meio normal. Dizem também que a mulher tem que ter uma idade certa para poder escolher o parto normal. Não existe nada disso, são mitos. Mas, só através da informação é que as pessoas vão começar a entender melhor e a realidade mudará”, observou.

Acompanhamento
Priscilla também é doula (acompanham grávidas durante a gestação e no parto, dando apoio pessoal e emocional) e afirma que a presença desses profissionais, além de outro acompanhante, como o pai do bebê, é fundamental para o sucesso no parto. “A presença do pai ou de outro acompanhante de escolha da gestante é importante, pois essa presença reflete na saúde emocional e física da mãe. Ela se sente apoiada, confiante e mais capaz. Essa presença é protegida por lei, apesar de não ser respeitada amplamente pelos hospitais”, defendeu.
Larissa Gurgel contou que a participação do pai do bebê foi fundamental durante todo o parto. “Ele me apoiou e passou confiança. Ajudou o médico empurrando a minha barriga e cortou o cordão umbilical, sempre segurando a minha mão e passando a mão no meu rosto. Isso me acalmou e me deu mais forças”.

Hoje, com o pequeno Victor Lucas nos braços, ela não se arrepende da escolha que fez. “Valeu a pena sentir todas as dores. Tivemos nosso bebê da forma mais natural e saudável possível e senti isso na recuperação, que foi rápida. No mesmo dia eu já estava andando. Na próxima gravidez também irei optar pelo método natural”, finalizou.

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