segunda-feira, 19 de agosto de 2019.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

"você jamais será livre sem uma imprensa livre." - Venelouis Xavier Pereira

Moradores cobram ações contra avanço do mar

segunda-feira, 13 de maio 2019

Imprimir texto A- A+

Na Praia do Icaraí, no em Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), a faixa litorânea é banhada de sol, tranquilidade e uma brisa constante. O ambiente leve, no entanto, contrasta com um drama que assombra os moradores da comunidade há pelo menos 12 anos: o avanço do nível do mar e o subsequente risco a que centenas de habitantes ficam expostos, com residências e negócios instalados a poucos metros do limite da praia.
Logo de frente aos condomínios que se acumulam na orla, a via asfaltada que marca a Avenida Litorânea se estende ao longo da praia, separando as casas e construções da faixa de areia. Entre o asfalto e a areia, uma espécie de batente de poucos metros de altura, com um amontoado de grandes pedras aglomeradas no chão. A estrutura forma uma barreira chamada de bag wall, arranjo construído com o intuito de proteger a comunidade do avanço da maré.

Os moradores, no entanto, apontam que o bag wall, por si só, não tem conseguido cumprir esse papel, sendo costumeiramente derrubado nas ocasiões de maré mais intensa. “Bag wall não adianta mais, já tem 10 anos que fazem isso. Desde que cheguei, comprei apartamento aqui, já fizeram seis ou sete vezes e cai sempre”, diz Marluce Linhares, moradora do local. “É uma coisa que não tem durabilidade”, reitera a comerciante Rosely Braz, que considera que os constantes esforços do poder público de reerguer a estrutura são dinheiro jogado fora. “Eu até volto atrás em certas palavras, porque, se não fosse isso, já não estávamos mais nem aqui”, pondera.

A principal demanda da população local é a construção de espigões ao longo da faixa litorânea, como os que já existem no litoral de Fortaleza. Segundo os moradores, trata-se da única medida viável que seria efetiva para resolver o problema. “A gente já recebeu nas nossas barracas vários tipos de engenheiros, até mesmo para vir tomar água de coco, e a gente não perde a oportunidade de pedir a eles um parecer, e eles dão esse parecer. Eles dizem, mesmo, que para cá só o espigão. Se não for um espigão, outro serviço aqui é jogar dinheiro fora, e é o que estamos vendo”, diz Rosely.

Impactos
Com isso, nos dias de maré mais cheia, a água chega a bater perigosamente perto das construções residenciais. Uma das principais consequências é a desvalorização dos imóveis locais. “Sou corretor há 25 anos, não consigo vender um imóvel. A desvalorização é absoluta, as pessoas têm medo. O Icaraí, outrora, era um paraíso, algo fantástico, espetacular, e as pessoas amavam tudo isso”, lamenta César Moura, que atua como síndico de um dos condomínios enfileirados na orla. A estimativa é de que cerca de 240 empregos diretos, no dia-a-dia desses condomínios, estejam em risco.

Os impactos negativos, no entanto, chegam a atingir a comunidade como um todo, com a diminuição perceptível do movimento de turistas. “Estamos com queda aqui de mais de 80% no número de clientes”, conta Rosely Braz. A diminuição no ritmo dos negócios impacta na economia local como um todo, que por bastante tempo se manteve em grande considerável com a movimentação de visitantes.

“Quando um prédio desse passa a entrar na área de risco, as pessoas não vão mais pagar condomínio. O imóvel não tem mais valorização, as pessoas ficam desabrigadas. Então já chegamos em outra etapa de um problema do Icaraí, antes era só o turismo, agora estamos sujeitos a ficar desabrigados também”, conta Alisson Paulinele, síndico de condomínio e participante do Movimento SOS Icaraí, iniciativa dos moradores para pressionar o poder público por medidas para combater a degradação do litoral.

Alisson conta que o Movimento está em diálogo com a Prefeitura de Caucaia para resolver o problema por definitivo. “Soubemos que tem um recurso de mais de R$ 28 milhões que está sendo destinado para o nosso litoral em caráter de catástrofe, de emergência, pela Defesa Civil e o Ministério da Integração, e com isso estamos cobrando das autoridades que venham fazer a obra definitiva, que é a dos espigões”, pontua.

Prefeitura
A Prefeitura de Caucaia, procurada pela reportagem, comunicou que já há um projeto para a construção de espigões na orla marítima do Icaraí. O projeto, segundo o poder público, já foi apresentado ao governo federal e aguarda a liberação de recursos para que o serviço seja executado o quanto antes.
Sobre a cratera na Avenida Litorânea, a administração pública diz que, ao contrário do que os moradores acreditam, a obra de reconstrução da via não foi paralisada, e sim o ritmo da intervenção teve que ser alterado em decorrência do período de chuvas. Garante, no entanto, que a reconstrução será concluída.
“O avanço do mar no Icaraí é acompanhado de perto tanto pela Defesa Civil quanto pela Secretaria de Infraestrutura e pela Autarquia de Trânsito. Diversas medidas já foram implementadas para resguardar a integridade de moradores e visitantes”, pontua, ainda, a nota enviada.

• Cratera
O avanço do mar e os riscos que isso oferece à população local pode passar despercebido a um visitante desavisado que chega à praia. Em um trecho da Avenida Litorânea, no entanto, o problema se mostra mais evidente. Uma cratera de grande proporção se estende por parte considerável da via, inviabilizando a passagem de automóveis de um ponto a outro. Abaixo, areia e pedras.

O buraco, segundo os moradores, apareceu de poucos meses para cá, ainda este ano. O problema é recorrente, com a cratera já tendo aparecido em ocasiões anteriores, em escalas até maiores. Outra cobrança da comunidade é a continuação das obras de reestruturação da via, que os habitantes dizem ter iniciado e logo sido interrompida pela administração pública.

Obra em Fortaleza causa preocupação

Em paralelo aos problemas locais vividos pela comunidade no Icaraí, os moradores manifestam receio com relação à obra do novo aterro da Beira Mar, tocada pelo poder público municipal de Fortaleza. Ao longo da execução da obra, a faixa de areia no litoral da Capital será ampliada a partir do depósito de cerca de 1 milhão de metros cúbicos de areia no mar. A preocupação é de que isso poderia gerar impactos negativos em praias vizinhas, inclusive no Icaraí, comprometendo ainda mais a situação atual.

O especialista responsável pelo documento que calcula os riscos ambientais da obra, Fábio Perdigão, já havia declarado em ocasião anterior que essas crenças são infundadas e não têm base em critérios técnicos. Segundo ele, o volume de 1 milhão de metros cúbicos de areia a serem depositados no mar é insignificante a nível oceânico e, portanto, não terá consequências em outras praias. Ele diz, ainda, que o avanço do nível do mar no Icaraí se deve a outros fatores, como a ocupação não planejada das orlas e a construção do Porto do Mucuripe, que data de 80 anos atrás.
A obra é executada pela Secretaria da Infraestrutura de Fortaleza (Seinf) e prevê engorda da faixa de areia entre os espigões das avenidas Rui Barbosa e Desembargador Moreira. São previstas, ainda, instalações de equipamentos como quiosques, ciclovias, pistas para corrida e projeto de arborização.

Instagram

[instagram-feed]

Facebook

Twitter