Busca de Matérias
sábado, 31 de julho de 2010. Fortaleza, Ceará, Brasil.

Opinião

quarta, 25 de março de 2009
3 comentário(s)

Roc, um artista às avessas

Tamanho do texto: A A A A     

Veja também
 

Há algum tempo, lembro ter sido apresentado a um curioso grupo de amigos que mais parecia ter sido criado pela imaginação de um Scott Fizgerald. Tratava-se, dentre outros, de Marie-Do, professora de literatura, e seu marido, Robert, que decidiu lançar-se de um modo bem estranho (para não dizer inusitado) no mundo das artes.

Roc, como ele é conhecido, é desse tipo que não torna fácil a descrição do próprio perfil por mãos alheias, porém intrigam e, além disso, acabam por desafiar. Ao me falarem dos quadros produzidos por ele, fui ver as obras de perto, e elas me deixaram com uma expressão de surpresa e algum espanto – menos pelo seu jeito de pintar que pela sua crítica sobre o modo como, hoje em dia, tudo pode ser considerado arte.

Além de pinturas abstratas havia uma tela separada das demais, talvez mais figurativa, que atraiu de imediato a minha curiosidade. Ao percebê-lo, o anfitrião se apressou em revelar, sem a menor cerimônia: “Esse quadro não é meu, apesar de você ter gostado mais. Mas veja este outro, é uma obra-prima, eu o chamo de Tríptico-cosmogônico”...

O nome, apesar de sugestivo, não me ajudava a ver melhor: um quadro dividido em três partes, pintado em cores neutras e alguns pingos amarelos bem destacados. Só. Veio imediata a legenda, ao vivo, com um riso de “marchand de tableaux” experiente no canto da boca: “Os críticos afirmam que se trata das ilhas da Bretanha, e são capazes até mesmo de nomeá-las”...

Não pude conter o riso, e, ao perguntar-lhe sobre seu processo de trabalho, veio-me a resposta seguinte, com calculada dramaticidade: “É todo um período de interiorização, de concepção, todo um sofrimento que se me esvai com um jato de tinta sobre a tela”...

Passamos adiante com uma ou outra gargalhada, e foi a vez de ele me mostrar mais uma das telas que considerava uma obra-prima de autoria própria: um perfil feminino, em tamanho natural, onde prevalecia uma cor alaranjada. O anúncio foi ainda mais solene: “Eis aí a Vitória Alada de Samotrácia na contemporaneidade”...

As formas, de longe, lembravam mesmo a escultura grega do Museu do Louvre, mas ele negou peremptoriamente qualquer semelhança com a original: “Não era a intenção, mas acabou nisso...”

Despedi-me de Robert e de Marie-Do sem perguntar a esta o motivo de ela se negar a servir de modelo, uma vez que o marido já tinha me explicado a técnica empregada no último quadro: bastava alguém se jogar ynas latas de tinta, cair em cima da tela como melhor conviesse e, pronto, eis uma inegável e imperecível obra artística.

A princípio, pensei que Roc não fosse jamais um artista, mas no dia seguinte encontrei-o num passeio de bicicleta com outros amigos, e nossa nova conversa mudou completamente essa minha idéia inicial. É que ao me perguntar sobre o que achei de seus trabalhos, acabei por me dar conta da personalidade artística que se dirigia a mim: sendo a arte uma representação de uma época, a arte contemporânea parece ter toda uma implicância com a vulgarização do consumo, aliás, vivemos a própria sociedade do consumo, onde as coisas passaram a ser medidas em cifras. – Infelizmente, até mesmo a arte.

Acabei, pois, por perceber que Roc brinca muito com essa realidade, como se tentasse se opor a ela: “Claro que posso fazer arte e dizer que é arte. Hoje em dia, qualquer um pode, o assunto parece não ser mais levado a sério. A prova disso é que vendi um dos meus quadros por quase mil euros. A propósito, conheço gente que faz um ou dois traços em cima de uma tela, chama isso de arte e ainda dá palestras em universidades!”

Diante de tal eloquência, não resta ao ouvinte atento senão ceder: Roc estende seu portfólio com uma obra sua impressa na capa: “Amargor”, nome que contrasta com a sorridente presença de Marie-Do, a qual deve ter descoberto, talvez não com menos surpresa, a existência de um artista onde aparentemente nem se suspeitava haver algum. Às avessas, como ficou claro, mas artista, ainda assim.

Cherlanyo Barros
Escritor



Comentários
 

Bravo

03/04/2009 06h38min roc , robertchausse@orange.fr

Si juste et si vrai


To see

03/04/2009 09h23min Roc , robertchausse@orange.fr

To see the works of Roc follow the link below: http://www.absolutearts.com/chausse/


Site

04/04/2009 21h00min Cherlanyo Barros , chbarros1@hotmail.com

Para ver as obras do artista Roc, basta ir ao site: http://www.absolutearts.com/chausse/


Comente >>


Ver todos os comentários >>