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Eleição na Rússia traz vitória e alerta para Vladimir Putin

terça-feira, 15 de setembro 2020

O Kremlin e a oposição estão cantando vitória acerca das eleições regionais na Rússia, que ocorreram de sexta (11) a domingo (13). Os números finais ainda devem demorar alguns dias para serem compilados, mas o mais provável é que ambos os lados estejam certos.
Isso não é exatamente boa notícia para o presidente Vladimir Putin, que vive um momento de especial pressão, nem para seus opositores. Houve eleições para diversos cargos diferentes em 41 das 85 regiões russas, em níveis municipal, regional e federal. Em 18 regiões, houve disputas diretas para governador, as mais importantes.
O partido Rússia Unida, que dá sustentação ao Kremlin, afirma que manteve o comando em todas elas. Houve as denúncias habituais de fraude aqui e ali, como registra a ONG de observação eleitoral Golos, mas dificilmente o resultado seria diferente. As estruturas de poder executivo são muito arraigadas no vasto interior russo. Já em disputas legislativas, há maior mobilidade, e apoiadores do opositor Alexei Navalni estão clamando algumas vitórias simbólicas.


A chefe do escritório da ONG de Navalni em Tomsk, cidade onde o blogueiro tomou o chá que presumivelmente continha o veneno Novitchok no dia 20 de agosto, Ksneia Fadeieva, foi eleita para o cargo equivalente a vereadora. O mesmo aconteceu para o chefe local da ONG em Novosibirsk, Serguei Boiko. A cidade é a terceira mais populosa da Rússia.
O time de Navalni, internado em Berlim, apostou tudo no que chamou de voto inteligente: buscar apoio máximo a postulantes de qualquer partido, desde que não o Rússia Unida. O fato de serem vitórias pontuais e para cargos secundários mostra o limite da tática. Não é casual que Navalni, por todo o barulho que faz, nunca tenha pontuado acima do traço em pesquisas presidenciais independentes.
Por outro lado, também demonstra que a fossilizada política russa pode ter elementos de dissenso dentro do jogo. E isso ocorre num momento de grande fragilidade relativa de Putin. Relativa porque, dependendo do ângulo com que se observa o longevo líder russo, ele está no zênite de seu poder. A alteração constitucional que abriu a chance de ele tentar ficar no Kremlin até 2036 consolidou isso.
Por outro lado, o russo enfrenta uma crise múltipla. A queda no consumo mundial de hidrocarbonetos devido à pandemia da Covid-19 fez a receita de exportação de petróleo russo cair 38% de janeiro a julho, em comparação com o mesmo período de 2019. A de gás caiu 51%. Seu único aliado a oeste, a Belarus, enfrenta um estado de convulsão política desde que o ditador Aleksandr Lukachenko venceu eleições vistas como fraudulentas. Putin tem angariado seu apoio a ele e prometeu intervir em caso de caos nas ruas, mas isso seria um convite a mais críticas internacionais.

Protestos
Em casa, além das eleições, há protestos diários contra Putin na grande cidade de Khabarovsk, junto à fronteira chinesa, a 6.000 km de Moscou. Lá, a população apoia o governador destituído pelo Kremlin sob acusação de diversos crimes -o mais surpreendente é que eles não parecem ter sido inventados. Os atos ocorrem desde 11 de julho, com intensidade variável. Até aqui, não houve sinal de repressão, o que sugere um Kremlin confiante em que a insatisfação fique estancada ali, mas também pode mostrar perda de controle.
Para a analista política Ekaterina Zolotova, da consultoria americana Geopolitical Futures, “o sinal mais claro de que algo está errado na Rússia é caso Navalni”. Para ela, ou Moscou teme a oposição nas regiões e mandou envenenar o ativista, que trabalhava para as eleições deste fim de semana, ou algum governo rival o fez para atrair críticas a Putin.
“Em qualquer cenário, Moscou está lidando com uma incerteza que afeta sua habilidade de governar”, afirmou Zolotova. A pressão externa, iniciada na Alemanha, chegou nesta segunda (14) à França, outra sócia importante dos russos em projetos energéticos. Não por acaso, Putin tem usado a pandemia como escudo para evitar o escrutínio público. Não participará da assembleia geral das Nações Unidas, cancelou sua sessão anual de perguntas e respostas com cidadãos e tem deixado o protagonismo de reuniões para seus ministros.

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