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Veteranos comemoram 75 anos do Dia D

sexta-feira, 07 de junho 2019

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Setenta e cinco anos depois do desembarque de 156 mil combatentes das tropas aliadas, a Normandia assiste a outra invasão vultosa. O birô de que promove o turismo na região prevê igualar ou até superar o recorde registrado em 2014, no 70º aniversário do Dia D, quando quase 6 milhões de pessoas passaram pelos museus e monumentos dedicados ao episódio que redefiniu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Um dos visitantes a engrossar a estatística é o militar reformado americano Fernando A. Torres, 97, que aportou na França em 7 de junho de 1944 – algumas horas depois do Dia D – e só conseguiu voltar ao país dias atrás, no fim de maio, a tempo das comemorações da efeméride.

“Logo depois da guerra, minha família quis me trazer, mas não aceitei”, diz, na entrada da prefeitura de Sainte-Mère Église, um dos primeiros vilarejos libertados na região, onde ele recebeu uma homenagem ao lado de outros nove veteranos americanos. Torres queria escapar da peregrinação turística por cemitérios e praias. “Em 1944, desembarcamos entre 4h30 e 5 horas da manhã na Praia de Omaha. A primeira coisa que vi foram corpos de pessoas que haviam se afogado. Quase pisei em um deles. Tinha 22 anos, era a primeira vez que via um morto. Um não, muitos.”

Além dos corpos, ele se lembra da névoa daquela manhã, tanto a meteorológica quanto a abstrata. “Não sabia onde estávamos, apenas que iríamos à França. Mas era jovem demais para ter medo. Estava eufórico, o sangue corria quente nas minhas veias.” Na Inglaterra, onde Torres tinha passado oito meses na montagem da operação, o rumor era de que a ofensiva aliada viria por Calais, no extremo norte francês (e o ponto mais próximo das ilhas britânicas).
Era lá que as tropas nazistas concentravam seus esforços defensivos, ainda que a Muralha do Atlântico se estendesse bem além da França. A missão do soldado americano era garantir as linhas de comunicação com os militares britânicos – 54 mil haviam chegado a duas praias um pouco a leste na véspera.

Front
Torres ficou no front por três semanas, antes de ser mandado para outras batalhas na França, na Bélgica e na Holanda. Depois de voltar para o Texas, engataria uma carreira de quatro décadas como professor, inicialmente de matemática, depois no primário. “Com o passar dos anos, amoleci. Em 2018, fui a uma cerimônia em um cemitério na Holanda e decidi que era hora de voltar à Normandia”, conta.
O regresso nunca foi tabu para o paraquedista George Shenkle, 97, integrante da 82ª Divisão Aérea dos Estados Unidos, que saltou para a guerra por volta das 2 horas da manhã do Dia D, perto de Sainte-Mère Église, com a tarefa de brecar o acesso dos alemães àquele perímetro. Hoje vivendo em um centro para veteranos nos arredores de Filadélfia (Pensilvânia), ele já esteve na Normandia mais de dez vezes. Forte, apesar de andar em cadeira de rodas, ele era dos mais falantes durante a cerimônia com o prefeito do vilarejo francês. No boné e na jaqueta, exibia medalhas e condecorações às dezenas.

“É legal ter o esforço reconhecido. Quando você envelhece, aprecia isso ainda mais”, diz. “Penso no desembarque todo dia, lembro que as pessoas [franceses] não acreditavam que aquilo estivesse acontecendo, que a hora da libertação tivesse chegado. Mas não me sinto um herói. Só tive a sorte de sobreviver.” Shenkle, aliás, questiona a fixação de seus conterrâneos por relatos de heroísmo. “Os veteranos adoram falar de sangue e vísceras. Não foi minha experiência. Passei pela guerra com a sensação de não ter matado ninguém e tenho orgulho disso. Mas as pessoas não querem ouvir essas histórias. Sangue e vísceras vendem livros.”
Depois do fim da guerra, o paraquedista trabalharia por quase 50 anos como contador. Excepcional ou habitual, o retorno de Torres e Shenkle ao cenário de batalha é obra da associação francesa Veterans Back to Normandy (veteranos de volta à Normandia), fundada em 2012.

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