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Ideologias apartam mulheres vítimas de abuso

segunda-feira, 15 de abril 2019

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“Nem uma a menos”, diz o mote feminista que começou na Argentina e se espalhou pelo movimento. Algumas mulheres, contudo, sentem-se deixadas para trás por suas congêneres. Tudo porque têm uma ideologia indigesta para elas. Isso acontece da direita à esquerda. A secretária de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do estado do Rio, Fabiana Bentes, puxou a discussão em março: “A gente tá vendo um monte de mulher se afogar e se perguntando: ‘Será que eu salvo?’”.
Fabiana estava num evento de sua pasta que lançou um projeto para mapear o assédio em ambiente de trabalho. Ao seu lado, Luiza Brunet. A atriz teve quatro costelas quebradas após uma briga, três anos atrás, em Nova York, com seu então namorado, o empresário Lírio Parisotto.

Algumas feministas, nicho em geral associado ao campo progressista, a acolheram até certo ponto. Luiza se sentiu isolada após ficar clara sua simpatia por Jair Bolsonaro, que já disse que não estupraria uma mulher porque ela “não merece” de tão feia que seria.

Luiza foi à posse dele e, em fevereiro, agradeceu seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, pelo “compromisso com as mulheres”. Disse mais: “A gente precisa realmente de uma visão masculina de um homem bonito como você”.

Eduardo já foi acusado por Patricia Lélis, jornalista que trabalhou no PSC quando ele era do partido, de ameaçá-la. Há prints de mensagens que enviou a ela: “Você vai se arrepender de ter nascido. […] Num (sic) pode me envergonhar, vagabunda”.

Se Luiza o defende, seria ela merecedora de apoio? Na internet, várias mensagens concluíam: claro que não. Uma, por exemplo, levantou a hipótese de que Luiza foi oportunista ao mover “uma ação milionária” contra o ex. “Me julguem! Mas andar com o filho do Bozo [apelido de Bolsonaro entre seus detratores], chamando isso de movimento feminista… soa interesse”, escreveu uma mulher.

Divergências
Para a escritora e colunista da Folha Antonia Pellegrino, a polarização “produz uma espécie de cegueira para o que há em comum entre nós”. E isso pode acontecer dentro das próprias patotas ideológicas. A estudante Laura Marquesi, 20, conta que, num ato no Dia Internacional da Mulher, esbravejou quando um grupo começou a gritar “Lula Livre”. Até gosta do ex-presidente, mas achava que ali não era lugar.

Um “esquerdomacho”, que Laura descreve como “o cara que fica pagando de progressista mas é babaca igual ao machistazinho de direita”, ameaçou sair no tapa. “Sabe o pior? As meninas que estavam com ele não fizeram p… nenhuma. Uma riu.”

A turismóloga Talita Freitas, 31, é bolsonarista roxa. Para ela, Bolsonaro tem “essa fala meio agressiva” para dar um jeito no país. Mas “muitos homens de direita” confundiram tudo e “começaram com hábitos feios, agir como se ele fosse o general deles”. Talita mostra à Folha de S.Paulo o post de um desses direitistas: “A mulé se diz de direita e vem com mimimi de feminista. Oh, carai, tu é de direita ou tu é suvaco peludo?”. Várias mulheres curtiram.

Se fosse se abrir com uma feminista, digamos, “típica” (de esquerda), ela especula o que ouviria de volta: “Por ser de direita tenho que aguentar isso calada”. É a lógica da mulher que, se usa minissaia, está pedindo para ser assediada. Só que, nesse caso, é a conservadora que sabia onde estava se metendo, então azar o dela.

Caso a mulher seja uma nêmesis ideológica, vale até apelar para o politicamente incorreto que a esquerda tanto critica na direita. Como espezinhar a aparência dela.
A jornalista Cynara Menezes, do blog Socialista Morena, assim o fez, ao chamar a ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) de “baranga” no Twitter. Mais: “Toda vez que um reaça vier atacar você, mulher de esquerda, manda ele casar com a Damares”.

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