Adoção
Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010
ABRIGO TIA JÚLIA - 22 crianças à espera de adoção
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“É bom ser criança, ter de todos atenção. Da mamãe carinho, do papai a proteção. É tão bom se divertir e não ter que trabalhar. Só comer, crescer, dormir, brincar”. Os versos da canção de Toquinho resumem o quanto é bom ser criança, mas nem todas sabem o que é isso. No Ceara, pelo menos 500 delas, não. Este é o número que representa parte dos pequeninos que vivem nos abrigos cearenses à espera de um lar. A inserção de crianças em abrigos é considerada uma medida de proteção social legítima, prevista pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), mas deve ficar restrita a situações excepcionais, quando, por razões diversas, as condições postas para a convivência familiar forem inadequadas ou mesmo inexistentes. Em outras palavras, a permanência de crianças em abrigos, ainda que de modo provisório, é recomendada somente em situações reconhecidas como de abandono.

Mas o que ocorre, na realidade, é bem diferente. Muitas crianças perdem a infância inteira nos abrigos. Fortaleza possui ao todo 23, e um deles é o Tia Júlia, na Parangaba. Com capacidade para 80 crianças, o Tia Júlia abriga hoje 82, com faixa etária entre 0 e 7 anos de idade. Após 7 anos, as crianças são remanejadas paras outros abrigos. Em atividade desde 2002, o abrigo ficará escrito na história de vida de muitas crianças. Uma delas é a pequena Maria (nome fictício), que, apesar de só ter começado a escrever a sua própria história já é considerada sinônimo de superação por todos. Maria foi abandonada em um terreno baldio no bairro Granja Portugal, em Fortaleza no último dia 26 de junho. Uma mulher que morava ao lado do terreno ouviu o choro do bebê e a encontrou num formigueiro, envolta ainda com parte do cordão umbilical. Maria foi para o hospital e resistiu fortemente a um destino que despontava sem muitas esperanças. Quem a vê hoje, buscando dar os primeiros passos não imagina a dificuldade que impuseram a ela. Maria é um bebê forte, que ainda não conhece a própria história, mas a expectativa é que ela passe a conhecê-la somente quando já estiver em um novo lar, quando já tiver recebido a chance de recomeçar.

Na visão da diretora do Tia Júlia, Luiza Helena dos Santos, para que histórias como a de Maria não se repitam é necessário que hajam políticas públicas eficientes. “O problema é muito sério, sobretudo no que diz respeito às drogas. Recebemos muitas crianças de pais envolvidos com crack, cocaína e álcool. É preciso que seja feito algo para que as crianças sequer cheguem aos abrigos. Temos uma equipe aqui que faz esse acompanhamento com a família. Muitas vezes a criança fica e os pais vêem visitar, na tentativa de manutenção do vínculo familiar, mas é um trabalho difícil, principalmente quando a droga está no meio”, confessou.

Luiza Helena citou como exemplo um jovem casal, ambos viciados. A criança foi abandonada e abrigada no Tia Júlia, ficando lá por um ano. Ao longo desse tempo, os dois iam visitar a filha e manifestavam desejo de criá-la, mas o desemprego os impedia. Após um tempo, o pai conseguiu um trabalho e a criança voltou para casa, mas posteriormente com a perda repentina do emprego as drogas voltaram e a criança também voltou ao abrigo. “Todas as crianças abrigadas no Tia Júlia possuem processo administrativo. Nós fazemos um trabalho forte de tentativa de vínculo familiar, porque não há lugar melhor no mundo para uma criança crescer do que a casa dos pais. Claro que a questão da pobreza não é uma desculpa para o abandono, mas hoje os valores estão muito distorcidos”, disse a coordenadora.

O Estatuto da Criança e do Adolescente é claro na determinação de que o abrigo deve ser provisório e excepcional. De acordo com a Nova Lei de Adoção, a criança só deve ficar nas instituições por um período de no máximo dois anos. Em 2010, nove crianças saíram do Tia Júlia para os braços de uma família. O abrigo possui, atualmente, 22 crianças disponíveis para adoção, destas, sete são saudáveis, ou seja, não possuem nenhum tipo de problema físico ou mental. As estatísticas demonstram que as crianças especiais têm maior dificuldade em encontrar uma família. O juiz titular da 4ª Vara da Infância e Juventude de Fortaleza, Francisco Jaime Medeiros Neto ressaltou que este é um grande empecilho. “Até hoje não vi nenhum casal que preencheu no cadastro o perfil de uma criança especial”, contou o magistrado, mostrando mais um capítulo da realidade.

Mas é exatamente nesta página que começa a história de Fernando (nome fictício). Para contrariar todas as estatísticas, o menino, que tem hidrocefalia e paralisia foi adotado este ano. Com um ano e três meses, Fernando conquistou de vez o coração de um casal. No início, apenas a mãe o queria, enquanto o pai relutava. Todos os dias Fernando recebia a visita da futura mamãe, que passava horas brincando com ele no pátio do Tia Júlia. Aos poucos ela foi convencendo o esposo do mesmo, até que ambos não mais contiveram a doce sensação da conquista e deram um lar ao menino.

Maria, Fernando, Pedro, Miguel, todas as outras crianças que vivem no Tia Júlia também esperam por um final feliz. Muito mais do que bola, boneca, carrinho e bicicleta, as crianças que vivem em abrigos querem mesmo é carinho e o aconchego de um lar.
 

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