Adoção
Sexta-feira, 04 de Janeiro de 2013
“Aquelas crianças já eram vencedoras”

A mudança de cidade trouxe o casal carioca Felipe e Lílian com o primogênito Fábio para morar em Fortaleza. O ano da transferência, 2004, foi o período a partir do qual nasceram Lídia e Gustavo: crianças que após sete anos mudariam a história dessa família fluminense.

O meio familiar e social tão adverso daquelas crianças, foi fundamental para que Felipe e Lílian compreendessem o quanto aqueles pequeninos já eram existencialmente, vencedores; ao mesmo tempo em que o crescimento pessoal, profissional e o pleno exercício da maternidade e paternidade amorosas do casal, foram decisivos para o acolhimento familiar à Lídia e Gustavo.

As crianças foram abandonadas pelos pais biológicos ainda bebês. Os primeiros anos de vida da menina foram traumáticos. Além do desamparo biológico e afetivo, Lídia sofreu maus tratos. Gustavo, o irmão caçula, também foi abandonado. A partir de 2005, os irmãos foram levados para o Abrigo Tia Júlia em Fortaleza. Entre idas e vindas, as crianças viveram períodos breves na companhia da mãe biológica na tentativa de reintegração familiar, no entanto, as situações de riscos voltavam a afligir a vida delas.

Superando as dificuldades
Felipe acabara de recuperar-se de um problema de saúde, e sentira o desejo de ampliar a família com a adoção de um irmãozinho ou irmãzinha para Fábio, o primeiro filho do casal. O desejo era também do próprio garoto que insistia com os pais. “O Fábio desde os dois anos de idade pedia um irmão.

Ele sempre insistia conosco!”, compartilha Felipe. Lílian, a mãe, recusou no primeiro momento a idéia, e durante um ano, aquele pedido permaneceu apenas no pensamento distante dela. O marido, Felipe, guardou a esperança de mais um filho no coração. Após um ano, Lílian abriu os olhos da alma e interessou-se pela adoção de duas meninas recém-nascidas que surgiram na sua vida de repente, sem muita explicação, apenas a ligação de um conhecido que havia compartilhado sobre as meninas.

Na época, Lílian e Felipe não conheciam a Lei Nacional de Adoção, o caminho legal para adotar uma criança. A adoção das meninas recém-nascidas não prosperou, e logo após, o casal decidiu buscar a Justiça através do Departamento de Cadastro no Fórum Clóvis Beviláqua em Fortaleza para a adoção de forma legal e segura. 

O preenchimento do questionário gerou  desconforto em nós
O caminho seguro da Adoção revelou-se para o casal a partir de janeiro de 2011. Felipe e Lílian foram orientados pelos profissionais do departamento de Cadastro em Fortaleza à cerca da documentação e o passo seguinte foi o preenchimento do perfil da criança, através de um questionário. “O preenchimento daquele questionário gerou um desconforto em nós. Tínhamos que assinalar cor, raça, sexo da criança”, considerou Lílian. Felipe e a esposa gostariam de definir apenas que a criança poderia ter mais de dois anos de idade. As outras características seletivas no questionário não tinham a mínima importância para eles.

Somente Deus para explicar o que senti
Após o deferimento do juiz de que o casal estava apto para adotar, o segundo momento, que se concretizou feliz, foi à ligação tão esperada, convidando-os para conhecer um casal de irmãos de seis e quatro anos de idade. A menina possuía atraso cognitivo, isto é, dificuldades na fala.

Os dois irmãos estavam no Abrigo Tia Júlia em Fortaleza. Felipe e Lílian foram com o filho Fábio conhecer as crianças. “Foi amor à primeira vista. A vontade era de abraçá-los e beijá-los. Naquele primeiro dia, eu fui embora chorando e dizendo que eram meus filhos. Somente Deus para explicar o que senti porque não há explicação natural...”, compartilhou Lílian.

Logo perceberam que apesar da dificuldade da menina de processar as palavras, ela interagia com as outras crianças e sorria bastante. Felipe lembra o quanto foi importante não limitar o perfil da criança através do item “saudável” no questionário para habilitação no Cadastro Nacional. Durante o período de convivência entre Felipe, Lílian, o filho Fábio e as crianças no Abrigo, a família foi informada de que a dificuldade na fala da menina era decorrente dos traumas que ela havia sofrido ainda bebê.

Lídia recupera a fala
O período de convivência entre as crianças e a família no Abrigo, passeios e fins de semana em casa foi de dois meses até receberem a guarda provisória em agosto de 2011. Três meses depois a família já estava com a guarda definitiva das crianças.

A aceitação de Lílian, Felipe e Fábio pelas crianças foi, extraordinariamente, rápida. Fábio, o filho mais velho, estava realizando o sonho de ganhar um irmão, agora mais uma irmãzinha também. Lílian logo começou a estimular o desenvolvimento cognitivo da filha, orientada e assistida por uma fonoaudióloga. Lídia apresenta melhora contínua no aperfeiçoamento da fala.

Mensagem de esperança
“Tudo acontece quando tem que acontecer. Você se achando preparada ou não, a hora é aquela para internalizar o propósito, conquistar e sermos conquistados. Disse para o meu marido: vamos juntos, vamos com Deus! O amor é intenso e nos habilita a vencer nas horas difíceis, superadas com os nossos filhos”, declara Lílian. Felipe acredita que o bem que os filhos fazem aos pais é maior do que aquele que os pais fazem aos filhos. “Lídia, nossa filha parece com a Lílian desde o penteado do cabelo até o modo como atende o celular; e, Gustavo, está a cada dia mais apegado ao irmão mais velho. Isso é maravilhoso!”.

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