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Briga nos céus

sexta-feira, 21 de abril 2017

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Outrora os Céus, para quem desejasse se fixar, eternamente, num lugar de absoluta calmaria, fugindo a violência da terra, e por que não dizer, do Brasil, nada melhor do que lá. Bom que não precisa de passaporte, tampouco pedágio, pois essa viagem é sem volta, podendo seguir pela estrada do além. Único documento exigido é o salvo-conduto de uma vida limpa, aqui na terra. Nos últimos tempos, o fluxo tem diminuído bastante, por fatores que não nos cabem discutir.

Apesar de toda divulgação sobre as excelentes qualidades de morada no reino celeste, as notícias que nos chegam é de que a tranquilidade, ali, vem sendo quebrada, e o pivô disso é a seca no nordeste. Depois da inauguração popular, pelos presidentes Lula e Dilma Rousseff, da transposição das águas do “Velho Chico”, S. José e S. Francisco não param de trocar farpas. Pior, que S. Pedro tem entrado nessa briga, sem que o Chefe maior consiga apaziguá-los. S. Francisco, com essa intenção de remediar a sede do nordestino do semiárido, é acusado de penetrar, de pilantra, sem aquiescência do mesmo, no território, que secularmente pertencia a S. José. Quanto a S. Pedro é parte dessa história como mero participante passivo, em virtude de um erro, por ele cometido, nos primórdios da geração do mundo.

Explica muito bem esse episódio, uma lenda que corre no interior da Paraíba. Esse estado é tradicionalmente composto de três zonas fisiográficas principais: brejo, cariri e sertão, no sentido leste-oeste. A fim de averiguar as distorções pluviométricas, com maior ocorrência nas duas primeiras áreas, Jesus, acompanhado de S. Pedro, que o secretariava, veio verificar, in loco, a situação. Nos sertões, chovendo regularmente, naturalmente permaneceu como estava. No brejo, o panorama era de desolação, pela predominância de constantes estiagens. Determinou, então, a regularidade pluviométrica. No cariri, todavia, praticamente submersa pelas frequentes inundações. Mas, que farei eu? Perguntou Jesus. Anote aí, Pedro, que não tinha boa audição: “chover um ano e outro ano”. Mas Pedro registrou: “um ano e oito não”!
A cizânia entre os dois históricos líderes dos Céus poderá aumentar com a chegada das águas do Velho Chico ao Ceará, do qual S. José é padroeiro. A isso se alia a circunstância de que o Papa é Chico, afinal terá de defender outro Chico, complicando a vida de S. José, cujo indiscutível prestígio, particularmente no nordeste, poderá sofrer abalos. Nesta região, o dia 19 de março, dedicado a S. José, é escolhido para previsões de inverno. Justamente onde a devoção pelo santo é de natureza religiosa e brota, igualmente, do povo. Temo pela sorte de sua popularidade.
Somente agora, passado mais de século, que se pretende corrigir a anotação de S. Pedro, a qual vale para toda região do perímetro de baixa pluviometria. Com a transposição, Lula entra, também, nessa encrenca, mas como bom político não está contra a qualquer um dos três. Acredito que a paz logo retornará, de modo definitivo, e que quanto mais água para os nordestinos melhor, para alegria de seus devotos, dos santos e futuros viajantes.

INOCÊNCIO NÓBREGA
JORNALISTA

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