quarta-feira, 26 de junho de 2019.
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"você jamais será livre sem uma imprensa livre." - Venelouis Xavier Pereira

Declínio da Abril é um sinal de como é urgente resgatar o Jornalismo

LUIZ FUJITA DIRETOR DE REDAÇÃO UZUMAKI

sexta-feira, 28 de dezembro 2018

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Após a demissão de cerca de 500 funcionários – não somente jornalistas – que ainda batalham pelo pagamento de seus direitos trabalhistas, alguns artigos analisaram o contexto da crise da Editora Abril, e entre muitas boas análises, dou meu parecer de que muito desse problema tem origem na falta de investimento em internet.

Creio que o declínio da empresa tenha algumas origens perceptíveis. Sempre me pareceu, por exemplo, que a empresa tinha títulos demais. Cada segmento de mercado podia ter três, quatro publicações com pequenas variações na linha editorial. Essa estratégia só me parecia possível – e, talvez, rentável – levando-se em conta um fator notório e consenso entre jornalistas há décadas: a área paga pouco. Pouquíssimo. E suga o cidadão além de suas forças. Somente assim uma empresa conseguiria manter essas dezenas de títulos.

Esse erro é conjuminado com um equívoco de avaliação também perceptível há muito tempo: pessoal, internet chegando, e aí? A editora manteve bons conteúdos espalhados em suas edições, mas quando o leitor buscava a revista na internet, encontrava um ambiente claramente abandonado.

Junto com a internet, tornou-se necessário outra medida que a empresa não tomou. Mais que reproduzir online o que fazia no impresso, a Abril não criou para o digital. O gigante da Comunicação perdeu verba para youtubers e não fez esforço para desenvolver os seus próprios produtores de conteúdo.

Em geral, uso o termo “conteúdo” para opor ao “vazio” de informação, relevância (em geral, relevância social) ou criatividade, o que inclui não somente as aberrações que vemos patrocinadas por grandes marcas, mas também a publicidade preguiçosa, que se contenta com um vídeo bem fotografado mas… que não diz nada. Até porque, alguns milhares de reais serão destinados à compra de mídia, o que vai garantir aquele número vultoso que o cliente vai usar para avaliar se investiu bem ou não.

O mais triste é que tenho colegas que trabalhavam na editora e seus relatos de como foi trabalhar ali demonstra o talento e a paixão com que labutavam para produzir o melhor que pudessem. Muitos desses simples posts de despedida tinham mais qualidade de escrita e narrativa que muito “conteúdo” patrocinado que invade timelines às custas de dinheiro que poderia estar pagando por trabalho relevante. Quem sabe, as redações não estejam apinhadas de pessoas prontas para produzir e só precisam de liberdade para isso?

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