domingo, 14 de outubro de 2018.
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Doces ou travessuras?

quinta-feira, 26 de agosto 2010

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Dia desses, enquanto esperava a condução, distraído a assobiar uma canção qualquer, vi, do outro lado da rua, o meu velho amigo Correto, o Politicamente Correto. Era uma manhã de clima particularmente agradável e eu tinha planos para não desperdiçá-la com assuntos graves, nem nada que lembrasse que a guerra é séria e a vida é dura. Tinha tirado aquela manhã para dar-me ao luxo de ser superficial, displicente, algo como “os homens passarão, e eu, passarinho”. Daí os senhores avaliem o tamanho do azar que tive ao cruzar justamente com o Correto.

Olhei para os lados, na tentativa desesperada de refugiar-me em qualquer lugar. Cogitei a fuga desenfreada. Tudo em vão. Correto já me vira e caminhava em minha direção, com os braços estendidos para abraçar-me. “Que diabos”, pensei aborrecido.
– Rodolfo, falou cheio daquele insuportável calor humano, viste a propaganda eleitoral da Marina Silva na TV? O que achaste?
– Sim, sim, aquela peça feita para assustar. Depois de assisti-la, tomei um copo de leite e fui dormir.

– E conseguiste repousar o corpo, sabendo que você é o responsável por tudo aquilo?, perguntou-me indignado.
Via minha manhã naufragando e o maldito ônibus que poderia resgatar-me não aparecia. Sem mais nada a fazer, comprei a briga.

– Correto, não dá para acreditar naquela conversa apocalíptica. Que clichê mais vagabundo: imagens do fim do mundo coladas a uma narração obscura em off. Ao final daquele minuto e meio de terror, a candidata verde aparece vestida de negro a anunciar o nome e a pedir o voto. Ora, por favor! Mais um pouco, eu diria que aquilo era uma campanha para Miss Halloween.

Ao menos se ela tivesse lido uns trechos de A Divina Comédia, de Dante, eu poderia louvar o fato da candidata ter recorrido a um clássico da literatura, lembrando a todos sobre a importância da leitura, etc. Mas nem isso: eu ficaria o tempo todo imaginando que, a qualquer momento, a candidata ia aparecer na tela e gritar, com uma foice nas mãos: “Doces ou travessuras?”. E também tem aquela história de aquecimento global. Na semana passada nevou em Santa Catarina! Parece que lá pelas bandas do sul maravilha fez um inverno dos brabos! No entanto, ela evocou o fim do mundo e vendeu a si própria como a solução do problema, como aquela que propõe a salvar o mundo.

Não é conveniente isso? É como furar o pneu do seu carro e apresentar-se, logo em seguida, como o último borracheiro das oficinas. No frigir, em um minuto e meio, ela conseguiu transformar um assunto que era apenas desagradável em um verdadeiro teatro pseudocientífico.
Correto ouviu tudo isso com as duas mãos à cabeça e as veias do pescoço a estourarem a qualquer momento. Os olhos inflamaram-se e a boca crispou-se. Súbito, ele explodiu:
– Olhe aqui, seu…

Nesse momento, o ônibus dobrou a esquina e parou. Despedi-me aliviado e embarquei no veículo. Fui viver a vida real.
 

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