terça-feira, 23 de julho de 2019.
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Dupla desumanidade

GEORGE MAZZA FUNCIONÁRIO PÚBLICO E MESTRE EM DIREITO

sexta-feira, 08 de fevereiro 2019

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Vi recentemente uma foto estampada em jornal de grande circulação no Estado do Rio de Janeiro que me aflorou um conjunto de sentimentos simultâneos: compaixão, indignação, revolta, incompreensão. Talvez você se junte a este autor e percorra cada um desses sentimentos ao ler as linhas que se seguem. Por outro lado, talvez conclua que se trata de mero exagero inutilmente depositado em uma coluna de jornal. O desfecho naturalmente será individual, mas a reflexão do que será abordado nos próximos parágrafos precisa ser coletiva, principalmente quando perdemos, quase que por completo, a conexão com os laços que nos trouxeram com mais ou menos percalços até a atualidade.

A foto retrata um amontoado de viciados em drogas em estado humano degradante. O cenário é a calçada que circunda a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). São os zumbis modernos em seus corpos esquálidos, seminus e esfarrapados. Na imagem a qual me deparo há homens submissos a migalhas de crack, alguns agachados em tal busca desenfreada, outros já sob o efeito eletrizante do entorpecente. Temos ali uma nova cracolândia, outra prisão sem grades.
O que mais impressiona é não conseguir me afastar do simbolismo da imagem e do flerte com a desumanidade dos que se ajuntam como bichos à procura de sua ração de sobrevivência. Alto lá, caro colunista, o leitor nos alerta: como bichos não! Tem toda a razão o leitor em sua afirmação: se bichos fossem, aqueles humanos teriam melhor tratamento da sociedade. Teríamos grupos ativistas protestando contra os maus-tratos, cobrando pronta resposta do Poder Público bem como a punição coletiva dos que permitiram aquela degradante cena de bichos em degradante estado “desumano” (sic).

Menos me assusta o estado degradante representado na foto a qual descrevi, e mais saber que há toda uma corrente militando a favor da ampliação dessas hordas de viciados, destinados a valer socialmente muito menos do que animais. Quem me dera fosse a fotografia de bichos famintos, pois já teríamos diversas manifestações no local e repúdio do jornal.

É bom lembrar que não há qualquer vanglória em ficarmos inertes ao ver animais sendo maltratados, principalmente por seres humanos. Na mesma direção, é inaceitável que silenciemos ante o fato de que seres humanos humanizam bichos e ao mesmo tempo pregam a desumanização de outros tantos humanos pela legalização das drogas. Fiquem certos caros leitores: são duas agendas políticas que caminham de mãos dadas. É a síntese da dupla desumanidade.

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