sábado, 20 de outubro de 2018.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

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É preciso amar Fortaleza

Luís-Sérgio SANTOS JORNALISTA

sexta-feira, 13 de abril 2018

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Adata não é considerada pelo historiador Adauto Leitão, assim como se questiona a data do dito “descobrimento” do Brasil. Há indícios consistentes de que o navegador Vicente Yáñez Pinzón chegou ao Brasil e, logo por essas bandas do litoral nordestino bem antes de Cabral. Mas, a história precisa de datas embora muitas dessas datas, sejam versões prevaleçam sobre fatos — afinal, na história oficial prevalece a versão do colonizador.

Vamos combinar, então, que o aniversário da cidade de Fortaleza é hoje, portanto, comemoremos, ou, como diria o saudoso poeta Rogaciano Leite Filho, “bebamos!”
A cidade tem uma história com ares de ineditismo, é preciso investigar suas origens a despeito de original produção acadêmica notadamente do Curso de História da nossa Universidade Federal do Ceará donde se destacam, dentre outros, trabalhos de Simone Simões, Sebastião Rogério Ponte (Fortaleza Belle Époque) e Adelaide Gonçalves. Fora dos muros acadêmicos temos outras peças memoráveis, como o livro de Marciano Lopes “Royal Briar: a Fortaleza dos anos 40”. No entanto, muita coisa precisa e deve ser escavada. O guardião de nossa memória, Michelangelo de Azevedo Nirez, é um acervo inesgotável. Ai de nós, não fosse o Nirez com seu acervo e junto a ele, o nosso monumento que é o Instituto do Ceará, hoje, sob a direção do escritor e médico Lúcio Alcântara.

Mas há muitos desafios para a nossa Academia e para quem se ocupa da preservação e do restauro da memória da cidade. Meu saudoso professor do Curso de Comunicação da UFC, Heitor Faria Guilherme, sempre usava a expressão “memória curta”, em amplo sentido. E um desses sentidos era a nossa vocação para apagar o passado. E aqui os exemplos são infindos sob o olhar cúmplice de gestores públicos absolutamente desprovidos de vocação humanista.

A arquitetura histórica da cidade é constantemente apagada, corredores como o da avenida Bezerra de Menezes — o único boulevard da cidade — são obtusamente destruídos. Temos a vocação para apagar nossa memória até no nome das ruas. Quem lembra da avenida Aquidaban? Certamente, o historiador Raimundo Girão, sempre preocupado com a nossa história e com as nossas tradições, teria se oposto à extirpação daquele nome. Mas algum “vândalo’ da nossa memória original, imaginou que o mestre Raimundo se orgulharia de ter seu nome ali.

Lembro do rififi, na cidade de São Paulo, quando algum vereador mais desinformado entrou com um projeto na Câmara para mudar o nome da avenida da Consolação para Carlos Drummond de Andrade. A cidade, que ruas com nomes como “Final Feliz”, “Travessa Nega Manhosa”, rua Aricanduva, rua Aurora e centenas de outros cheios de ternura e emoção, entrou em pé de guerra. Não contra o poeta Carlos Drummond de Andrade, a quem todos veneramos. Mas contra a ideia insana de enterrar um nome histórico originado a partir de um dos maiores cemitérios da cidade de São Paulo, o cemitério da Consolação.
Pois, aqui em Fortaleza, conseguimos apagar a única homenagem que existia ao governador geral do Ceará, Matias Beck. Os holandeses foram donatários do Ceará durante 19 anos e Matias Beck era seu comandante-mor. Essa parte da história sequer foi contada e pracinha Matias Beck, em frente ao clube Náutico, no Meireles, mudou de nome.
Uma cidade de memória curta, sim. E eu ainda ia falar da mudança do gabarito na avenida Beira Mar. O antigo código de posturas da cidade só permitia a construção de prédios de até quatro andares.

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