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Farias Brito Panfletário – III

BARROS ALVES - JORNALISTA

quinta-feira, 09 de novembro 2017

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Farias Brito, mais importante filósofo brasileiro – não professor de filosofia -, talvez o único entre nós a expor pensamento próprio a respeito da existência humana e do mundo, escreveu violento panfleto, em 1916, pouco antes de falecer, cujo alvo foram os homens de letras, os jornalistas e os políticos. Em artigos anteriores, publicados neste espaço (edições de 4/10 e 20/10), discorremos sobre a catilinária do filósofo cearense contra os dois primeiros alvos. Hoje é a vez dos políticos, que infelicitam a República desde há muito.

E, de par com o entusiasmo patriótico, FB já colocava um pé atrás quando se referia aos agentes públicos de sua contemporaneidade e escrevia n’O PANFLETO, jornal de uma única edição, que se continuassem “esta política de assaltos e traições, sem generosidade, sem consciência, sem amor e sem justiça, perdendo a visão do próprio destino e a fé no futuro da pátria”, estariam pavimentando o caminho para “reduzir tudo a frangalhos.” Farias Brito, o visionário, como que antecipando os dias atuais, em que assomam mais que dantes as misérias públicas da nossa República transformada em “ré pública”, olhando o retrato político de sua época, admoesta: “Aos que nos dirigem poder-se-ia dizer: protegei a virtude, amparai os homens de espírito, castigai os criminosos e os ladrões, expulsai das assembleias políticas, de todas as corporações em que devem trabalhar a inteligência e o amor, não somente os nulos, mas ainda os intrusos e os falsários; os que só vivem para comer e só têm capacidade para cavar posições: sede intransigentes, terríveis nesta obra de saneamento moral; e escolhei os mais dignos, os mais capazes e tudo estará salvo.”

O nosso panfletário, porém, logo se desencanta diante do cenário moralmente devastado. Diante da inexorabilidade dos fatos políticos, verifica que seu otimismo não passa de expectativa vã. Os nossos dirigentes políticos, ontem como hoje, o que fazem é “tirar de uns o que de direito lhes pertence, para dar a outros que muitas vezes nada valem.” E aduz, como se estivesse no Brasil dos dias hodiernos: “O que prevalece é o protecionismo às escâncaras, desabusado e cínico, as preferências mais odiosas e indignas.” FB se põe a denunciar a grande farsa que então já era a República. Os concursos, por exemplo, não passavam de “uma vergonha e um escândalo, e em regra, uma simulação e uma mentira.” Enfim, o tiroteio verbal do filósofo panfletário não cabe neste breve artigo, que encerro com o desabafo doloroso, porém irretorquível, por ele assentado: “País de impostores, odientos e cínicos, algumas vezes perversos; país de exploradores políticos; país de falsos legisladores – eis o que somos.”

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