quarta-feira, 20 de março de 2019.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

"você jamais será livre sem uma imprensa livre." - Venelouis Xavier Pereira

Faxina

EMMANUEL BRANDÃO PUBLICITÁRIO E ESCRITOR

quinta-feira, 14 de março 2019

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Segunda-feira de Carnaval. Olinda, Rio de Janeiro, Salvador, Guaramiranga? Não, não. Fui visitar meus pais. Aproveitei que minha esposa tinha ido trabalhar e tirei o dia para não fazer nada na casa deles. Essa era a ideia, mas minha mãe logo estragou toda minha programação e tratou de arrumar uma missão para meu dia. E que missão. Ela resolveu dar uma geral no meu antigo guarda-roupas. Desde quando casei, há quase quatro anos, ela me cobrava isso.
O meu estoque de desculpas já havia acabado e não podia mais adiar esse programão. Ela me pegou pelo braço, como nos tempos que eu tinha uns 10 anos, levou-me até o quarto e começamos essa bendita faxina.  A cada caixa que abríamos, aumentava a nostalgia e os espirros. As lembranças vinham embrulhadas de muita poeira. Para ela, era um acúmulo de porcarias. Para mim, era parte da minha história.
Encontrei coisas da faculdade, objetos do colégio e até brinquedos de quando era criança. No meio daquelas relíquias, o passado ia sendo reconstruído. Ela pouco se importava e seguia enchendo o saco de lixo com um sorriso no rosto. Em uma das caixas, encontramos meu álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 1994, completo, diga-se de passagem. Bonecos que brincava pela casa. Cadernos do meu ensino médio e, no meio das páginas, um boletim que havia escondido da minha mãe. Sem ela perceber, escondi mais uma vez. Uma Ferrari, de brinquedo, claro. O uniforme do meu time do condomínio estava junto com várias medalhas, todas conquistadas com muito suor. Tudo aquilo cuidadosamente era separado para o lixo. Embora não demonstrasse, aqueles momentos estavam sendo torturantes. A tristeza foi maior que a minha vontade de espirrar.
Depois alguns minutos de aflição que pareciam horas, minha mãe, feliz da vida e aliviada, amarrou o saco e pediu para eu colocar no lixo. Eu peguei aqueles sacos que faziam parte da minha história e desviei o caminho. Ao invés de levar para o lixo, coloquei-os no porta-malas do meu carro e fiquei com o sentimento de super-herói dos objetos indefesos. Cheguei em casa orgulhoso. O problema é que quando fui contar a história à minha esposa ela começou a espirrar e falou que não tinha condições de conviver com aquele lixo. Espero que ela tenha mais paciência do que minha mãe e eu passe pelo menos mais quatro anos com meus bregueços.

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