sexta-feira, 23 de agosto de 2019.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

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Lagosta, bebida e armas

GRECIANNY CORDEIRO PROMOTORA DE JUSTIÇA

segunda-feira, 13 de maio 2019

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Podemos dizer que, nessa semana, a farra está garantida.
O Brasil é o país das desigualdades sociais.
Com frequência, crianças e adultos morrem nos corredores dos hospitais superlotados, antes mesmo de receberem o devido atendimento; e faltam medicamentos, suprimentos hospitalares e profissionais da saúde, impedindo uma adequada prestação do serviço público.
As escolas públicas vivenciam o drama da violência e, vez por outra, seus alunos são atingidos por balas perdidas nos confrontos entre policiais e traficantes, ou ainda, algum adolescente resolve ir armado para a escola e abre fogo contra os colegas, professores e funcionários.
A violência urbana continua a crescer, bem como os índices de homicídio, acidentes de trânsito, roubos, furtos, agressões contra mulheres, enfim, um rol de crimes que deixa os cidadãos reféns do medo.
Esse é o triste retrato do mundo real, em que vive a maioria da população brasileira.
Num patamar mais acima, quase onírico, entre os poderes da República, podemos destacar:
Um Judiciário, representado pelo STF, preocupado em comer lagosta e tomar vinho, cujos rótulos devem ser internacionalmente premiados, numa conta que chega à casa de mais de um milhão de reais. Tamanha fartura “se justifica por ser necessária ao bom e relevante funcionamento do STF”. O jurisdicionado que se dane.
O Legislativo, no caso, o do estado do Ceará, aprovou uma lei que libera a venda de bebida alcoólica nos estádios, querendo fazer crer que isso não aumentará a violência em dias de jogos. E, de forma contraditória, a exceção ocorrerá nos dias de “clássico-rei”. Claro que, nessa história, alguém está ganhando. E muito. O torcedor que se dane.
O Legislativo federal, como de praxe, deixou claro seu desinteresse no combate à corrupção, retirando o Coaf do Ministério da Justiça e intenta proibir auditor da Receita Federal de investigar crime que não seja de ordem fiscal. Na democracia, quanto mais instituições investigando, maior sua transparência. Portanto, a democracia que se dane.
O Executivo federal, por sua vez, aprovou um decreto que estende o porte de arma para várias categorias profissionais, num verdadeiro “liberou geral”, sem qualquer preocupação com as consequências de tal ato. O cidadão que se dane.
Entre lagostas, bacalhau, vinhos importados, conhaques envelhecidos, bebidas nos estádios e armas na cintura, vamos acompanhando um festival de imoralidade, indecência e irresponsabilidade.

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