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Malandros ou heróis?

quinta-feira, 03 de julho 2008

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“Meia oito” entrou para a história como o ano das rebeldias. Grupos organizados em torno de um ideário de liberdades varreram o mundo clamando por transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais.

A França tornou-se símbolo original desse período, abrigando uma violenta reação de estudantes que ficou conhecida como a “noite das barricadas”. O Quartier Latin, bairro universitário de Paris, foi literalmente fechado em protesto contra o conservadorismo do governo De Gaulle.
Na Tchecoslováquia, país membro da “cortina de ferro”, o povo saiu às ruas para desafiar o Pacto de Varsóvia, coordenado pela União Soviética, e para protestar contra o centralismo despótico considerado a grande aberração do sistema socialista. A manifestação tcheca ficou conhecida como a “Primavera de Praga”.
Nos Estados Unidos, os protestos visaram, principalmente, a irracionalidade da guerra do Vietnã e a discriminação racial, acirrada a partir do assassinato do líder negro Martin Luther King.
O Brasil vivia os anos de chumbo do regime militar, mas a febre libertária de 1968 também contagiou o país. A reação ao assassinato do estudante Edson Luís, que culminou com a passeata dos 100 mil na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, e o processo de cassação de mandato do deputado Márcio Moreira Alves, foram a gota d’água para que o governo militar mostrasse a cara.
Assim, de imediato, as manifestações de 1968 motivaram o regime a escancarar a verdadeira face da ditadura através da edição do AI-5. Numa análise de prazo mais elástico, 1968 deve ser considerado um marco no desencadeamento do processo de redemocratização do país, que seria concluído uma década mais tarde, com a publicação da lei da anistia.
Eu era pré-adolescente, aluno do Colégio Militar de Fortaleza. Meu pai, parlamentar estadual de oposição, era aliado dos estudantes liderados por José Genoíno, presidente da UNE. As reuniões para organizar as passeatas, concentrações e outras manifestações de protesto, aconteciam muitas vezes na velha varanda da nossa casa na Gentilândia, bem próxima à Reitoria da UFC, sob o meu olhar curioso.
Comemoram-se, agora, 40 anos desse vendaval de contestações. Os jovens rebeldes de “meia-oito”, hoje sexagenários, tiveram trajetórias diversas. Alguns abraçaram a carreira política, outros trataram de esquecer aqueles tempos de aventura e nem tocam no assunto. Há, ainda, os que pararam no tempo. Vivem se vangloriando de que participaram de tal movimento e frequentemente repetem das baionetas que tiveram de enfrentar ou trincam os dentes quando se referem à “canalha da UDN”. Estes parecem não perceber que o Brasil mudou. Pode-se dizer que permanecem de olhos vidrados no retrovisor da história, ressuscitando fantasmas, e que são incapazes de enxergar a atualidade nacional com uma visão crítica.
Meu pai morreu sem retomar o mandato. Contudo, nas trincheiras do jornalismo, combateu os desvios de conduta da chamada “Nova República” até quando que lhe foi permitido. Lembro que, quando foi anistiado, o reitor da UFC recomendou-lhe que fizesse um requerimento pedindo para reassumir o lugar de professor no curso de Odontologia, e, com isso, recuperar as perdas salariais que tivera em decorrência da cassação de seu mandato. De imediato, teve a firmeza de pedir desculpas ao amigo reitor, pela ignorância de não saber como pedir para voltar, se nunca havia pedido para sair.
Observo que o Estado brasileiro vem reparando os danos causados aos perseguidos pela ditadura. Em princípio, nada parece mais justo. No entanto, e a meu ver, conceder indenização ou pensão a quem, depois de anistiado, refez a trajetória profissional ou política é premiação que figura entre o absurdo e o amoral. Pra malandragem, é mais uma “boquinha”. Para os poucos heróis, sobreviventes ou não, e seus descendentes, há de haver justiça social e parcimônia monetária, até mesmo para preservá-los da sarjeta dos oportunistas.

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