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Minha Portela querida

sexta-feira, 17 de março 2017

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Em 1984, a Portela havia conquistado seu último título de campeã do Carnaval carioca, então pela 21a vez, com o samba de enredo “Contos de Areia”, de Norival Reis e Dedé da Portela, dividindo o título com a Mangueira. À época, com 14 anos, eu era um moleque, morava no Rio de Janeiro, mas precisamente em Angra dos Reis, cursando o Colégio Naval. A intimidade com o Carnaval era zero. A bem da verdade, até hoje, nunca fui um aficcionado da maior festa popular do País. Mas já tinha em mim o gosto pela música e pela pesquisa.

Aquele samba entrou para a história: conseguiu dar corpo ao enredo assinado pelos carnavalescos Edmundo Braga e Paulino Espírito Santo, um canto de amor ao sincretismo ‘’sambístico-religioso’’, relacionando os orixás com três dos principais nomes da agremiação: Natal, Paulo da Portela e Clara Nunes. O samba fez muito sucesso na arquibancada da Sapucaí, e é, até hoje, mais lembrado que o da também tradicional verde-rosa, que fez uma homenagem à Braguinha. Apesar de repetir a façanha somente este ano, depois de 33 anos na fila, a mais querida de Madureira continua sendo a agremiação com mais títulos: 22 ao todo.

Bem além da lógica do desfile – que confesso também não ter paciência para assistir – o que me encanta na Portela são outras coisas: sua história, seu bairro, sua comunidade, seus compositores e, principalmente, sua música. A lista de sambistas portelenses – da gema ou simpatizantes – é extensa e maravilhosa: Aniceto, Manacéa, Argemiro, Casquinha, Candeia, Zé Ketti, Wilson Moreira, Monarco, Paulinho da Viola, Clara Nunes, Agepê, João Nogueira e Diogo Nogueira, Juliana Diniz, Rildo Hora, Léo Russo, Luiz Airão, Tereza Cristina, Zeca Pagodinho e tantos outros. Mesmo que você não goste de samba, você já se pegou cantarolando ou assoviando sucessos deste time. Canções que já fazem parte da trilha sonora da música popular brasileira, numa dimensão de eternidade.

Estando no Rio, gaste algumas horas para fazer o longo trajeto de ônibus até Madureira e conhecer a sede da Escola: gente comum, vivendo a difícil realidade da periferia de uma das mais belas cidades do mundo, levando com sangue e suor o dia-a-dia da quadra. Prove a feijoada da Tia Surica, entrecortada por lautos goles de uma modesta e gelada cerveja. Assista aos ensaios e testemunhe como a alegria é, ao mesmo tempo, gratuita e inestimável. Sinta o amor exalado em cada acorde pronunciado pelos componentes da Velha Guarda da Portela. Refastele-se de azul e branco do “manto azul da padroeira do Brasil” e leve um souvenir qualquer com a águia estampada para exibir aos amigos. Sinta-se integrando um troço antigo chamado comunidade.

A vitória de uma escola é a vitória destes tantos, maiores ou menores, conhecidos pela mídia ou somente pelos parceiros do bairro, que se deixam encantar pela fantasia do Carnaval. A vitória da Portela é, em mim, a lembrança daquele menino que viu tudo aquilo maravilhado, sem nada entender, e que agora faz daquela “águia altaneira o espírito santo do templo do samba”, toda vez canto e toco meu tamborim pelos bares de Fortaleza. Que seja para sempre a maior e a mais bela, minha Portela querida.

Demétrio Andrade
Jornalista

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