quinta-feira, 18 de outubro de 2018.
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O poder da vírgula

INOCÊNCIO NÓBREGA JORNALISTA

quarta-feira, 13 de junho 2018

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Nos últimos dias, o ilegítimo presidente Temer sofreu dois grandes abalos. O segundo, que ainda persiste, vem das greves dos caminhoneiros e petroleiros, até agora culminando com a queda de Pedro Parente, porém nada a mudar na Petrobrás. O primeiro, uma simples vírgula ia ocasionando estragos ao seu governo. Na ânsia de enganar a população, determinou sua assessoria que redigisse um convite alusivo ao 2º ano de sua usurpação no cargo. E o marqueteiro assim o fez: “O Brasil voltou, 20 anos em 2”, a expressão ideal encontrada.

Como no Brasil nada se cria, tudo se copia, a intenção era pegar carona do famoso lema de Juscelino Kubitschek: “50 Anos em cinco”, inteligentemente cunhado pelo poeta carioca Augusto F. Schmidt. A intrepidez de JK corria célere e irresoluto nos quatro cantos do país, pouco se atentando para o uso da vírgula. No caso recente, porém, o ator pretendia alcançar o mesmo público, sem se preocupar com sua condição de ilegitimidade e impopularidade. Nada fácil ao marqueteiro construir uma frase com uma pontuação correta, pois sua leitura seria de um governo sem compromisso com o povo e com a Nação.

O desastre já estava consumado, por malícia e sensibilidade dos brasileiros, especialmente das redes sociais. Procurou-se outra redação: “Maio/2016 – Maio/2018”, mas a emenda foi pior do que o soneto. À rejeição, pela história, do esperto mandatário, não cabe qualquer recurso gramatical, como graciosamente se opera na justiça.

Pontuar, com correção, comparando-a a um percurso qualquer, através de um seguimento viário, é obedecermos à sinalização de trânsito. As palavras funcionam como os veículos, tendo de fluírem com segurança, até o ponto final. Estão sujeitas, nesse trajeto, a eventuais paradas, e mais longas, o (;). A vírgula, nesse contexto, não só regula a velocidade, ao exigir necessária pausa, como imprime beleza à escrita e conforto à viagem. Ela serve para separar o aposto, o vocativo ou assessorar o adjunto adverbial.

O mau uso dessa pontuação pode acarretar desastrosos danos à vida das pessoas, trazendo, inclusive, embaraços jurídicos. Destaca-se dentre o grupo de sinais, com poderes para desfazer uma farsa, levando irreparáveis sequelas. Temer, uma dessas vítimas. Para justificar o erro, não adianta recorrer-se a leis gramaticais mesoclíticas, pois não admite transgressões ao seu emprego, mormente para fins que distorçam sua função. Ciente de sua força, o então governador paraibano Pedro Gondim – conta-nos o amigo Ramalho Leite, de que este se deslocara, certa feita, ao Recife, unicamente para corrigir uma vírgula, numa mensagem natalina, a ser publicada por jornais dessa cidade.

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