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O Tecedor de ousadias

BARROS ALVES JORNALISTA, POETA E ASSESSOR PARLAMENTAR

quarta-feira, 06 de dezembro 2017

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Uma das formas seguras de se escrever a História é registrar a vida e a obra das personalidades célebres. Este é o pensamento do escocês Thomas Carlyle, respeitável historiador da Era Vitoriana. Para Carlyle, a história pode ser interpretada por intermédio da vida daqueles que se destacam e servem de exemplo para as pósteras gerações. Eles lideram os povos, dão o tom dos fatos, recolhem seguidores, servem de exemplo para muitos, sugerem caminhos para o bem ou para o mal. Enfim, a história da humanidade está na biográfia de seus líderes.

Concordo com Carlyle. Esta visão sedimenta minha compreensão quando leio livros como este escrito pelo poeta e historiador Juarez Leitão, cujo título remete para a importância da personalidade biografada: DEUSMAR QUEIRÓS, O TECEDOR DE OUSADIAS. Um tecedor de ousadias é um ser capaz de fazer dos seus sonhares realidades pujantes e perenes. Trata-se de uma biografia autorizada. Isto pode deixar o leitor com o pé atrás. Mas, não se faça de rogado, porque nas mais de 400 páginas da obra em apreço a autoridade é o historiador que traça o perfil da personagem com a pertinência de quem pesquisou exaustivamente o objeto de sua narrativa e a construiu com a melhor técnica da escritura biográfica.

Mikhail Bakhtin, teórico da cultura e pesquisador da linguagem humana, já afirmava não haver coincidência entre autor e personagem nem na autobiografia. A autobiografia é um “sujeito” que se constitui por intermédio do seu próprio discurso e ao mesmo tempo se autodefine. A biografia é um “sujeito” que se expressa através do discurso de outro, numa urdidura em que as dimensões pública e privada se sobredeterminam e se dimensionam no espaço da escrita.

A retórica contida nesse discurso, segundo Laclau, não é um mero enfeite da linguagem como o supunha a ontologia clássica, mas passa a ser o campo primário da constituição da objetividade. Os relatos de vida delineiam um território bem reconhecível, uma cartografia da trajetória individual em um atlas coletivo. Portanto, é correto afirmar que uma narrativa biográfica tem um foco subordinado a uma orientação valorativa que impulsiona de modo dessemelhante a biografia e a autobiografia.

Não é menos verdade assegurar que a biografia autorizada se aproxima da autobiografia, não querendo isto significar desvirtuamento dos caminhos explorados pelo biógrafo, muito menos dos seus métodos retóricos e estético-literários. Juarez Leitão, já consagrado como um biógrafo de excelsos méritos, posto ser poeta que sabe contar histórias de vivências, neste livro consegue assegurar às teorias da arte de biografar a consistência que lhes imprime o direito de afirmar que biografia é História, como bem o disse Carlyle.

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