domingo, 20 de janeiro de 2019.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

"você jamais será livre sem uma imprensa livre." - Venelouis Xavier Pereira

Quer conteúdo de qualidade? Cultive o hábito de pagar por ele

LUIZ FUJITA DIRETOR DE REDAÇÃO UZUMAKI

segunda-feira, 07 de janeiro 2019

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Em entrevista ao ator Lázaro Ramos, o também ator Pedro Cardoso falou sobre o valor que damos às coisas. Ele destaca como uma pessoa é capaz de comprar um apartamento por um milhão de reais, mas incapaz de pagar cinco mil para que um profissional o pinte. Alguém consegue discordar?
No caso, Pedro usa o exemplo para falar sobre a relação entre centenas de anos vividos com escravidão e a dificuldade que temos para valorizar o trabalho. Peço perdão ao Pedro por usar o mesmo exemplo para falar sobre um tema muito menos nobre que a má resolução do Brasil com seu passado escravocrata. Penso que a mesma situação se aplica à má vontade no País para se pagar por conteúdo.

Com a internet, é praticamente padrão consumir conteúdo de graça. Particularmente no YouTube, um grande contingente de criadores ganhou projeção e, com ajuda da plataforma, arrumou meios para ganhar dinheiro com a visibilidade. Ainda assim, a forma de lucrar normalmente tem a ver com patrocínios de empresas; raramente é calcada em um público pagante.
Há certa vergonha de pedir dinheiro quando se produz conteúdo. O produtor prevê recepção negativa dos seguidores, e não podemos culpá-lo por isso. É alto o risco de ele ser achincalhado se ousar inaugurar uma forma de receber dinheiro dos inscritos. “Ei, assisto você toda semana, mas querer que eu te pague é demais.”

Veículos tradicionais, há anos, perdem espaço para a internet, e a melhor alternativa encontrada parece ser o bom e velho assinante. É temerário que canais com credibilidade restrinjam acesso a seu conteúdo enquanto notícias falsas correm de graça pela internet e pelo WhatsApp. Por outro lado, como qualquer empresa, eles precisam ser viáveis economicamente.
O ideal é um cenário em que o consumidor pague quem produz e que o conteúdo permaneça gratuito, não limitado a somente quem tem poder aquisitivo. Para fechar a conta, é essencial que o público adote o hábito de pagar ou “doar”, termo preferido por alguns canais para resolver o constrangimento de receber por seu trabalho. Talvez brindes possam ser oferecidos para estimular essa cultura (acesso antecipado, extras exclusivos, convites para eventos etc.).

O conteúdo é um bem imaterial, e, talvez como o trabalho, seja desvalorizado no Brasil. Por que pagar a um adolescente que tem somente uma câmera e grava dentro de seu quarto? Se a pergunta fizer sentido, talvez você esteja no grupo que compra uma casa, mas não paga um pintor.

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