segunda-feira, 20 de maio de 2019.
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"você jamais será livre sem uma imprensa livre." - Venelouis Xavier Pereira

Reflexões para a Quaresma XVII

SÁVIO BITTENCOURT ESCRITOR E MESTRE EM HISTÓRIA SOCIAL

quarta-feira, 15 de maio 2019

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Avideira que não dá fruto é podada para que possa, a partir do corte de seus galhos, pegar força para crescer. Na vida, sempre estamos sujeitos às podas. Aparecem como contrariedades, quedas, desapontamentos. Quando as portas se fecham, e as coisas não funcionam como desejamos, ficamos muito descontentes e, não raramente, questionamos os desígnios de Deus. Dependendo do tamanho do dissabor, tendemos a questionar o próprio Deus, duvidar de sua amizade, de sua existência. Temos muita dificuldade em lidar com as derrotas, não só pelo que efetivamente deixamos de conquistar ou ter, mas porque ela pode indiciar que falhamos em alguma coisa.
A forma com que lidamos com os nossos fracassos é determinada pela nossa fé. Se, ao deparamo-nos com as dificuldades, desmoronam nossas certezas e a enxurrada de dor ou raiva varre a nossa alma, é porque só adoramos um deus triunfalista, condicionado esse “amor” às benesses que recebemos em troca. Há cruzes a carregar e já deveríamos saber disso. Mas, é comum que, diante das provações, o desespero assuma o comando. Alguns se deprimem, enfiados numa ridícula autopiedade que cultivam como se houvesse mérito em ser infeliz; outros, se permitem ataques de ira que demonstram a suma importância que atribuem a si mesmos, deuses instantâneos do seu entorno. Existem quem mude de religião, na tenativa desesperada de achar fora de si o que só poderia encontrar na sua própria alma.
O pior fator do fracasso é justamente esse: sucumbir a ele, como se não houvesse um Cristo salvador, de braços abertos para nos abraçar, consolar, reanimar. Muitas vezes, as quedas são fruto de uma concepção egoísta e utilitarista da religião, nas palavras do saudoso padre Léo (Canção Nova, menção em palestra), de pessoas que criam “um deus a sua imagem e semelhança”, invertendo os valores da Verdade. O grande tombo do ser humano é a falta de gratidão, de reconhecimento pelos benefícios espirituais e pelas ferramentas do bem-viver que a nova e eterna aliança nos brindou. Podemos oferecer a Deus uma maturidade digna de sua confiança, abandonando os chiliques de mininos mimados que afloram quando se nega uma vontade. A grande maioria dos problemas que incomodam ao coração do homem são muito pequenos, vistos com algum distanciamento.
“A vida passa tão depressa que, realmente, vale mais a pena possuir uma belíssima coroa, com um pouco de dor, que uma coroa vulgar sem nenhuma dor” (Santa Terezinha, Obras Completas, Editora Paulus, p. 264). A gratidão pela coroa de valor que Jesus nos oferece a cada eucaristia deve suplantar nossas dores. A gratidão deve ser o adubo das nossas boas ações, as lentes de amor que nos ajudam a enxergar nas adversidades a oportunidade de crescimento, de renovação da alma, de abandono dos pequenos vícios privados que arrastamos por apego ao erro e vaidade. A gratidão é mãe dos frutos antes sonegados! Com imensa gratidão, contemplamos um deus de perdão e acolhimento, vinhateiro paciente, que espera com carinho os frutos que seu amor fecundou em nós (Lucas, 13, 8). Que tipo de videira és tu?  Grata ou ingrata? Fértil ou estéril? Corajosa ou fraca?

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