27 C°

segunda-feira, 29 de maio de 2017.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

"você jamais será livre sem uma imprensa livre." - Venelouis Xavier Pereira

Roberto Campos: um pensador além do tempo

quarta-feira, 19 de abril 2017

Imprimir texto A- A+

Sua contundência verbal e primor textual, a lucidez de seu raciocínio e o farto domínio intelectual o fez uma das vozes mais marcantes no pensamento político e econômico na segunda metade do século XX. Mas seu maior predicado foi a coragem e veemência na defesa de suas convicções. Defensor ardoroso e intransigente do livre mercado, foi por décadas demonizado tanto pela esquerda – dominante entre a intelectualidade nos anos 50 à 80 -, quanto pelo regime militar que primava pelo estatismo e protecionismo. Mas Roberto Campos nunca rendeu-se às conveniências dos aplausos fáceis e afagos do poder, mantendo-se fiel às suas concepções – que mais de meio século depois mostram-se mais atuais que nunca.
Roberto Campos, que completaria 100 anos na segunda-feira passada, dia 17, participou ativamente da vida pública por mais de 50 anos, seja como economista e diplomata, tendo ocupado dentre outros os cargos de presidente do BNDES, embaixador, ministro do Planejamento, senador da República e deputado federal. Mas seu maior legado foi no mundo das ideias. Ele foi um dos maiores defensores do liberalismo no País. Encarnou o papel de pregador incansável do pensamento liberal e usava de fina ironia para combater o que denominava os venenos do ismos: protecionismo, nacionalismo, intervencionismo, corporativismo e o estatismo – a comprometer o desenvolvimento sustentado do Brasil.
Tinha a convicção de que a economia de mercado, a concorrência interna e externa e o Estado mínimo, aliados a uma revolução na educação e na tecnologia eram a melhor maneira de promover o desenvolvimento sustentável e a prosperidade geral da população. Roberto Campos era um fiscalista e combatia a gastança sem lastro do dinheiro público. “A primeira coisa a fazer no Brasil é abandonar a chupeta das utopias em favor da bigorna do realismo”, disse certa vez.

Campos sempre criticou as estatais como celeiros de ineficiência, desperdício e corrupção. Ele entendia a corrupção como algo intrinsecamente ligado a um Estado repleto de oportunidades para prestar favores e, de certo modo, cobrar por isto. As chocantes e repulsivas revelações da operação Lava Jato demonstram que ele estava repleto de razão.

Sua vasta obra, em ensaios, artigos e livros, dos quais destacam-se: O Mundo que Vejo e não Desejo; A Lanterna na Popa, livro de memórias; e os últimos ensaios do Na Virada do Milênio, têm sido revistas diariamente pela clareza das ideias e coadunação das mesmas com a história e os dias atuais.
“O mundo está ficando cada vez mais parecido com as minhas ideias”, disse o cuiabano Roberto Campos em referência às mudanças que ocorriam no final da década de 90. Pena que o mundo e, principalmente o Brasil demorou a segui-las.

José Maria Philomeno
Economista

outros destaques >>

Facebook

Twitter