terça-feira, 19 de junho de 2018.
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Surpresa

EMMANUEL BRANDÃO PUBLICITÁRIO E ESCRITOR

sexta-feira, 12 de janeiro 2018

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Recebi uma mensagem de texto da minha esposa com apenas três palavrinhas: TENHO UMA SURPRESA! Escrito desse jeito mesmo, com todas as palavras em caixa alta e com uma exclamação no final. Detalhe, desde a alfabetização eu tento entender o real sentido do ponto de exclamação e, até hoje, nunca tive certeza do que ele significa. Tem quem diga que é imposição, afirmação, ordem, susto, entusiasmo. Ou seja: essa surpresa podia ser boa, ruim ou péssima.

Do jeito que sou curioso, perguntei na mesma hora o que era. Em caixa baixa mesmo. Ela demorou alguns minutos, o que parecia uma eternidade e respondeu de volta “Mais tarde eu conto. Agora estou ocupada”. Eu pensei “Como ela tá ocupada e escrevendo mensagem ao mesmo tempo?”. Liguei pra ela e o telefone chamou, chamou, chamou. Depois fiquei pensando que essa tal surpresa devia ser coisa séria e, por isso, ela ia precisar de um tempo para dizer com mais calma.

Comecei a pensar mil coisas. Ela engravidou. São gêmeos. Ops, trigêmeos. Putz. Meu Deus, tô lascado. Tenho que trabalhar pra pagar as contas, muitas contas. Não deve ser isso. Ela teria me contado, estaria enjoando, com o corpo inchado. Não é isso, viajei.

Pensei outra hipótese: ela foi demitida. Pronto, é isso. Ficou com vergonha de me atender. Estava chorando. A crise atingiu o setor dela. Tenho um amigo que perdeu o emprego, um amigo do meu vizinho também, chegou a vez dela. Nosso país tá em crise, vou embora para os Estados Unidos. Ixe, lá tem o Trump. Depois pensei bem e me questionei: se ela fosse demitida não estaria ocupada. Afinal de contas, não conheço nenhum desempregado ocupado. Não faz sentido. Não é isso.

Caramba, já sei o que é: alguém deve ter morrido. Lascou. Será se é alguém próximo? Meus pais sofreram um acidente!!! Com exclamações mesmo. Três. Liguei pra eles, graças a Deus não era nada. Minha tia estava internada. Mas não foi ela, senão eles teriam falado. Deve ser alguém da família dela. Coitado, quem será? Se fosse, ela me contaria, não me deixaria perder o velório. Ela jamais faria isso. Passei o dia pensando no que seria aquela bendita ou maldita surpresa. As horas foram passando e minha imaginação não parava quieta. Cada vez que recebia uma mensagem, meu coração acelerava. Transpirava mais do que em uma partida de futebol. Depois de muito tempo, minha esposa me liga e pergunta o que tinha acontecido para eu ligar 15 vezes pra ela. Eu a interrompo e pergunto qual era a surpresa. Ela se faz surpresa com minha pergunta e diz que não tem surpresa nenhuma.

Quando voltamos pra casa, encontramos uma torta queimada no fogão que ela tinha feito pra mim, com todo carinho, e esquecido no forno. Quando ela abriu o forno, fez uma carinha de triste e falou: essa era a surpresa. Era! Com exclamação mesmo.

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