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TOC

EMMANUEL BRANDÃO PUBLICITÁRIO E ESCRITOR

sexta-feira, 09 de março 2018

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Convivo com vários amigos de manias bem diferentes. No começo, estranhava. Depois, estranhei mais ainda. Mas me acostumei. E, prestando atenção, percebi que essas manias eram algum tipo de TOC. Desde os mais simples aos mais complexos. Essa crônica eu vou dedicar para eles. Mesmo achando que eles não leem meus textos, prefiro não citar nenhum nome. Vai que eles não têm mais essa mania e eu não sei. É melhor não arriscar.

Tem um que não consegue ver um relógio torto na parede que vai querer ajeitar, um minuto parece uma eternidade e o som que o tique taque faz incomoda mais do que o despertador tocando. Tem um que parece querer acabar com a água do planeta: lava as mãos de cinco em cinco minutos. Tem um que chega a enjoar mais do que mulher grávida quando encontra uma sandália ao avesso. Tem um que não passa embaixo da escada de jeito nenhum. Tem um que faz questão de maltratar o seu joelho: ele sobe dezesseis andares de escada porque tem medo de elevador. Tem um que conversa cutucando. Tem um que tem mania de limpeza e basta um cílio no chão para usar como desculpa para limpar toda a casa. Tem um que só falta queimar a luz da geladeira: fica fechando e abrindo direto. Tem um que passa o dia coçando a cabeça, ele jura que não é piolho. Tem um que é quase farmacêutico: conhece todo tipo de remédio e tudo que é doença ele imagina ter. Um simples espirro é quase uma pneumonia. Dor de cabeça é praticamente um AVC. Pessoas assim são classificadas como hipocondríacas.

Lendo um pouco sobre TOC, percebi que pode ser só uma mania boba, como também pode ser considerado um transtorno mental. Mas você não precisa ficar com peso na consciência se riu de alguma das histórias. Depois que casei, além de uns quilinhos a mais, também adquiri um TOC: verificar se tranquei corretamente a porta da rua. Faço isso todos os dias. Às vezes até mais de uma vez. Não me incomodo mais, já me acostumei. Embora reconheço: é chato estar deitado, todo enrolado e ter que ir confirmar se tranquei a porta.
Talvez eu faça isso porque perdi minha principal referência de segurança: a casa dos meus pais. Talvez a responsabilidade de assumir minha própria casa. Talvez o medo do vizinho que não tem a cara nada simpática.
Não sei ao certo o verdadeiro motivo, o que tenho certeza é que já virou um TOC e entrei para esse seleto grupo de manias estranhas. Agora, para não perder o costume, estou indo ali conferir se tranquei mesmo a porta. Pela terceira vez. Até a próxima.

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