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Militantes agora ganham a vida nas vias de Fortaleza

terça-feira, 02 de setembro 2008

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FOTO: GABRIEL GONÇALVES / O ESTADO

Diferente da militância política de antigamente, que ganhou as ruas durante a Ditadura Militar, quando muitas pessoas, levantavam bandeiras de ideologias em comum, uma nova corrente se apresenta de formas diferenciadas e com novos personagens. São bandeirinhas que nem sempre conhecem as propostas dos candidatos que ajudam a eleger. Um movimento sem ideologia, mas que se sustenta pela da sobrevivência.

Os cenários da Capital, hoje, estão rodeados de bandeiras que, em diferentes tons e tamanhos, chamam a atenção de motoristas e pedestres, trazendo à lembrança certos candidatos e até irritando parte da população que se mostra aborrecida das mesmas promessas e dos mesmos calotes políticos. Os rostos são visivelmente cansados e os gestos de enfado são comuns nos cruzamentos das avenidas. Os postes são, muitas vezes, um refúgio para se apoiar e descansar por alguns segundos para, logo em breve, se manter a postos para as horas que ainda faltam.

Sob o sol quente da Terra da Luz, dezenas de bandeirantes se revezam nos cruzamentos mais movimentados de Fortaleza em busca de tornar conhecido certo candidato, que paga em dia sua própria militância. São mães e pais de família que não encontraram oportunidades produtivas e para lutarem em prol de um ideal precisam ter a certeza de que o pão de cada dia vai estar na mesa amanhã. É mais uma forma de sobrevivência, é um bico que, muitas vezes, tira a fome e representa uma saída para quem espera pelos que já foram eleitos.

O Estado se deparou com o irmão do jogador de vôlei de praia, Márcio Araújo, que foi prata nas Olimpíadas de Pequim, fazendo bandeiraço para uma candidata a vereadora na Avenida da Universidade. Carlos André, 32 anos, admite que a candidata pela qual levanta a bandeira é sua parente, mas se adianta: “Ela é minha parente sim, mas eu estou aqui porque preciso do dinheiro.” Carlos é professor de vôlei, é casado, tem um filho de sete anos e garante que não sente “vergonha” por estar no sinal levantando bandeira. “O que mais incomoda é o cansaço mental e o fato de algumas pessoas passarem falando palavrões com a gente”, desabafou Carlos.

Para a dona-de-casa, Maria de Fátima, 43 anos, o salário mínimo que recebe em um mês para levantar bandeiras oito horas por dia, é essencial para sustentar os dois filhos.

Separada do marido, Maria admite que está gostando da nova experiência, apesar de ser “cansativa.” A atual bandeirante já trabalhou como empregada doméstica e vendeu lanches para sustentar a família. “Os outros eram mais cansativos e nesse aqui a gente não tem tanta cobrança, a não ser quando a gente não levanta direito a bandeira”, ressaltou admitindo que vai votar no candidato para quem milita.

O ajudante de serviços gerais, Luiz dos Santos, 49 anos, é casado há 27 anos e usa o dinheiro das bandeiradas para sustentar oito filhos. Luiz também recebe um salário por mês para trabalhar oito horas por dia, mas admite que vai votar no candidato para quem segura a bandeira. “Eu vou dar uma chance porque ele é um candidato novo e os outros políticos que a gente vê só prometem e não fazem nada”, enfatizou. Para Luiz o trabalho é cansativo porque são muitas horas na mesma posição. “Às vezes chega a ser enfadonho, mas eu não me arrependo”, desabafou Luiz garantindo que esse dinheiro vai fazer falta ao final da campanha.

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