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A cidade deserta

Sávio Bittencourt

Colunista - + CADERNOS

sexta-feira, 03 de novembro 2017

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Tive um sonho estranho ontem à noite. Sonhei que estava numa cidade abandonada, sozinho. O lugar não era como as cidades abandonadas comuns, como se vê em filmes, um tanto desoladas, às vezes devastadas. Não! A Cidade abandonada do meu sonho estava intacta, com belos e modernos prédios, ruas bem pavimentadas, tudo parecendo novo em folha. Só não tinha gente.

 

Andei sem rumo por aquelas avenidas largas e silenciosas. Arborizadas, mas não se viam pássaros. Havia carros parados, estacionados. Suas cores eram em sua maioria muito vivas, ressaltadas pelo tempo aberto de céu azul. Como eram diferentes dos carros pretos e cinzas de hoje em dia. Pensei em Henry Ford que, depois de toda a sua genialidade posta em exercício, desconfiou que seus consumidores jamais queriam carros coloridos, que não fossem pretos como os que fabricava. Se ele estava errado na época, já que parece que os consumidores começaram a comprar carros coloridos de seus concorrentes, estaria certo hoje, nas nossas cidades reais de carros pretos e cinzas.

Mas não na minha cidade de sonho. Lá os carros eram coloridos, vivos, lindos. Depois de muito andar, sentei num bar bem charmoso, destes que há em Paris e em Lisboa. Um café, por assim dizer. Como não havia ninguém para me atender, entrei balcão adentro e preparei um capuccino e belisquei uns pães de queijo. Fiquei ali sentado, vendo o tempo passar na cidade vazia de gente. Foi aí que reparei o relógio do prédio antigo que ficava em frente ao tal café. Estava parado. Julguei que pudesse estar com defeito, afinal era um prédio arte-decó que supus ser da década de trinta. Institivamente olhei para meu pulso e, um tanto assustado, reparei que o meu relógio de pulso também estava parado.

Levantei apressado para procurar aqueles relógios de rua que informam o calor nosso de cada dia, e que sempre consultamos para constatar porque andamos ensopados no verão. Correndo pela avenida pude encontrar três ou quatro destes: todos parados, marcando permanentemente a mesma hora. Desesperei-me! O tempo parou e as pessoas sumiram. Fique preso num segundo qualquer da eternidade e não posso mais compartilhar a vida com ninguém!

Tentei respirar mais fundo para poder pensar melhor. Entrei numa loja de móveis e deitei no sofá, como se estivesse na sala da minha casa. Precisava meditar sobre aquela situação inusitada para tentar achar uma explicação, quem sabe uma solução para meu desterro temporal. Nada me ocorria, senão tentar cantar uma canção tranquilizante, uma música que me lembrasse as chuvas na terra da infância e seu cheiro de aconchego… Eu precisava lembrar de alguma. Nessa agonia, um alento, uma chance, um som de porta se abrindo, uma chaqualhada no meu corpo…uma voz doce cantando uma música sobre Maria Bonita… Um cheiro de perfume de alfazema. Era você me acordando com um sorriso lindo, me salvando da solidão, do tempo que não corre, e me pedindo para ir comprar pão.

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