sábado, 17 de novembro de 2018.
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A lata e a manifestação

João Soares Neto

Colunista - + SUPLEMENTOS

sexta-feira, 29 de junho 2018

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O Apolinário é um velho conhecido meu. Encontrou-me esta semana. Horário do almoço, sol a pino. Estava suado e transtornado. Puxou-me para um bar no canto da rua e falou de sua preocupação: – Há um barulho esquisito, muito estranho, no meu celular. Perguntou-me o que achava. – Deve ser problema de sinal, depende do local onde você esteja; todos os telefones estão assim, e tentei mudar de assunto.
O Apolinário pegou no meu braço e falou: Creio que estou sendo escutado; coisa séria. O chiado é estranho. Todo mundo diz que a Dilma foi gravada. Imagine eu que não tenho ninguém para me defender e orientar. E o seu nervosismo aumentava. E soltou um “ajude-me”.

Eu estava apressado, mas o Apolinário não me dava trégua. Ele pedia ajuda e os seus olhos estavam marejando. Respirei fundo, olhei para o seu corpo avantajado, suado, cinturão no último furo, barba por fazer e mãos úmidas. Falei: você está com medo de quê? Fez algo errado? Há alguma coisa que não me tenha me dito? Ele pediu uma cerveja, pois o garçom nos olhava como a dizer: sentam e não vão pedir nada?
Tomou um gole, limpou a boca e arrematou: – Sabe aquela passeata, a que teve quebra-quebra e em que umas pessoas foram presas? Sei não, Apolinário, já são tantas manifestações e caminhadas. Ele me diz em voz baixa: – Aquela em que a polícia baixou o pau sem dó, nem piedade e na qual uma pessoa foi atingida na cabeça por uma lata de leite em pó? E emendou – Fui eu que joguei a lata. Estava no meu escritório, aporrinhei-me e mandei a lata lá do segundo andar. A desgraçada caiu na cabeça de um policial grandão que acabara de tirar o boné para limpar a testa. Tenho acompanhado o caso. De longe, é claro, mas não sei o estado dele. Não deu nada no jornal e agora esse chiado no meu telefone. Estou sem dormir, e nem falei para a minha mulher, sabe como é, ela anda com raiva de mim faz tempo. Você não podia dar um jeito para descobrir?
Fiz-lhe mais uma pergunta: – A lata estava cheia, lacrada? Ele abriu um grande sorriso meio maroto e gritou: não!, estou salvo, o leite voou e a lata seca não deve ter feito nenhum estrago. Sem paciência, perguntei: posso ir embora? Ele disse, meio distraído: pode ir, boa tarde, e concluiu: – Garçom, traga mais uma gelada.

Adenor Bachi – Tite

 

Hoje resolvemos homenagear o treinador Tite, que atualmente comanda a Seleção Brasileira na Copa da Rússia. Ele nasceu em Caxias do Sul no  dia  25 de maio de 1961. É ex-futebolista e depois começou sua carreira como treinador. Filho do meio de Ivone Mazochi e Genor Bachi, tem uma irmã mais velha, chamada Beatriz, e um irmão mais novo, chamado Ademir (Miro). Quando criança, sua família o chamava de Ade, cuja maior diversão era jogar futebol com seu irmão Miro, incentivado pelo pai. Moravam em uma travessa da Rua Sinimbu, no bairro de Lourdes, passando às vezes dificuldades, com dona Ivone trabalhando como costureira para conseguirem pagar as contas, o que quase fez Ade abandonar seu sonho de ser jogador de futebol. Os irmãos estudavam no então Colégio Estadual do Guarani, que não tinha quadra para jogar. Para isso, muitas vezes pulavam o muro dos fundos de um colégio particular de freiras que ficava a 200 metros da sua casa. Na década de 1970, Luiz Felipe Scolari, na época jogador veterano no Caxias, e que já se iniciava na carreira de treinador, à frente do time da Escola Estadual Cristóvão Mendonza, descobriu o talento de Ade para o futebol. Este, então jogava no time do Colégio Estadual Emilio Meyer (antigo Colégio Estadual do Guarani) e durante um torneio escolar, Scolari observou aquele camisa 10 jogando, fazendo a dupla de meio-campo com outro jogador, que tinha o apelido de Tite. Scolari levou Ade para um teste no Caxias, mas confundiu os apelidos e o apresentou como Tite. A partir de então, o apelido o acompanharia durante toda a carreira. Tite foi aprovado no teste e passou a integrar a equipe.

Tempos depois, transferiu-se para o Grêmio, seu time do coração, onde permaneceu por apenas uma semana, abandonando a concentração. Tite começou sua carreira como volante no Caxias em 1978, atuando por 121 jogos. Em 1984, foi vendido para o Esportivo de Bento Gonçalves. Em 1985, foi para Portuguesa. No ano seguinte, já no Guarani, alcançou seu auge sendo vice-campeão brasileiro de 1986 e no Brasileiro de 1987 (Copa União), além de também ter sido vice-campeão no Campeonato Paulista de 1988. Tite foi obrigado a encerrar prematuramente a carreira, com apenas 28 anos, devido a uma série de lesões nos joelhos, inclusive com ruptura de ligamento, perdendo a mobilidade de uma das pernas. Até hoje não consegue flexionar um dos joelhos. Tite graduou-se em Educação Física pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e tornou-se treinador em 1990 dirigindo o time do Guarany de Garibaldi. Treinou diversos times gaúchos como Veranópolis (1993). Depois, assumiu o Ypiranga de Erechim (1996), e posteriormente o Juventude (1997). Em 2000, dirigindo o Caxias, realizou campanha surpreendente no Campeonato Gaúcho de 2000 levando o clube a ser campeão sobre o Grêmio, que contava com Ronaldinho Gaúcho. É o terceiro treinador com maior número de jogos da história do Caxias, atrás apenas de Francisco Neto e Marco Eugênio. Somando as duas passagens, e contabilizando amistosos e jogos oficiais, foram 126 jogos com 56 vitórias, 39 empates e 31 derrotas. Em 2001 foi contratado pelo Grêmio, justamente o time que havia derrotado. No Grêmio, sagra-se campeão do Campeonato Gaúcho de 2001. No mesmo ano, também leva o Grêmio à conquista da Copa do Brasil sobre o Corinthians nas finais. Houve empate na primeira partida no Olímpico por 2–2 e vitória no Morumbi por 3–1, sendo o primeiro nacional de Tite. Permaneceria no Grêmio até 2003. Após a eliminação da Seleção Brasileira, ainda na primeira fase, da Copa América Centenário, o treinador Dunga foi demitido em 14 de junho. No mesmo dia, à noite, Tite participou de reunião com dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol para negociar sua contratação para o cargo. No dia 20 de junho, foi confirmado sua contratação para ser o treinador da Seleção. Fez uma campanha praticamente perfeita, tendo uma longa série de vitórias consecutivas, reerguendo a moral da Seleção, que vinha abalada.

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