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Maria do Lixo

Sebastião Nery

Nacional

terça-feira, 27 de dezembro 2016

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Maria das Graças, menina magrinha, cara de rato e perna de andorinha, acordava com a madrugada e descia pulando a ladeira da favela, para catar lixo nas montanhas de entulho de uma vila com nome de santo, numa cidade com nome de céu.
Maria das Graças, menina magrinha, cabelo de piolho, boca suja de farinha, voltava com a noite e subia cantando a ladeira da favela, trazendo caco de vidro branco porque caco de vidro escuro vale menos.
Maria das Graças, menina magrinha, dentes muito brancos e a pele toda pretinha, catava vidro branco na montanha de lixo da Vila São Domingos, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, quando a montanha se mexeu como elefante deitado e rolou lá de cima em ondas multicoloridas de podridão e mau cheiro. Maria das Graças, menina magrinha, não deu um passo. Ficou enterrada ali mesmo, com seu buquê de caco de vidro branco nas mãos e os olhos muito abertos entupidos de espanto e lixo.
Você está vendo, Maria das Graças, menina magrinha, que a culpa de sua morte é inteiramente sua? Se você lesse os jornais ficaria sabendo disso. Vou provar a você!
Seu tio advertiu você para não passar perto da montanha de lixo quando voltasse para casa depois de catar caco de vidro branco na montanha de lixo. Você tinha que catar caco de vidro branco na montanha de lixo muito longe da montanha de lixo. Sua mania de juntar cacos de vidro – e caco de vidro branco, porque vale mais do que caco de vidro escuro – fez você aproximar-se muito do local de perigo.
Mas onde sua culpa é imperdoável, Maria das Graças, menina magrinha, é na estúpida opção que você fez de sua vida. O que é que levou você à estranha tara de catar caco de vidro branco na montanha de lixo? Como compreender que uma menina com nome de santa (Maria das Graças), morando numa vila com nome de santo (São Domingos) em uma cidade com nome de céu (Belo Horizonte), fosse mexer com o vício de catar caco de vidro branco na montanha de lixo?
Maria das Graças, menina magrinha, cara de rato e perna de andorinha, foi uma pena que você tivesse morrido. Eu tinha uma aula para lhe dar ontem à beira da piscina do Copa, um hotel muito velho e muito charmoso onde grã-finos espreguiçam tédio em noites longas de caviar.
Eu teria apresentado a você um rapaz talentoso, bom profissional e bom caráter, que costumava tropeçar nas palavras mas ninguém jamais o acusou de tropeçar nos outros. Ele lançou um manual da civilização ocidental cristã, “20 anos de Caviar”.Você morreu porque quis. Você morreu porque optou. Você morreu por culpa sua.
Maria das Graças, menina magrinha, eu poderia mandar esta lágrima para cobrir seu túmulo de lixo. Mas, de que adianta? A culpa foi mesmo sua, menina pretinha, menina sujinha. Nessa noite de Natal, você não quis ser Maria do Caviar, Maria do Luxo. Acabou mesmo sendo Maria do Lixo.

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