terça-feira, 18 de dezembro de 2018.
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O dia que mamãe virou um passarinho

Sávio Bittencourt

Colunista - + CADERNOS

sexta-feira, 30 de novembro 2018

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Primeiro foi a história da visão. Mamãe me chamou em reservado e me contou tudo. Caminhava pelo corredor da nossa casa (digo “nossa” em reverência ao meu próprio passado, quando ali morei na minha infância e juventude, há mais de trinta anos), indo para a cozinha preparar um café. Era cedo porque velho acorda sempre cedo. Pensava nisso quando, ao passo que seus passos ganhavam o corredor, percebeu algo de estranho na sala de visitas, que pode entreolhar de leve. Viu dois vultos alojados no sofá principal, pessoas sentadas como se visitas fossem. Mas àquela hora? Como teriam entrado? Ela era a primeira a acordar, como sempre, e seu marido ainda dormia até às 7!

Apesar do inusitado da ocorrência, mamãe não teve medo. Intuía que conhecia os visitantes que ali estavam e se aproximou para mirá-los mais proximamente. Suas silhuetas àquela distância, da porta ao sofá, mesmo para seus olhos cansados, pareciam familiares. E eram. Aproximou-se deles com alguma ansiedade e foi descortinando suas amadas fisionomias, que conhecia e reconhecia. Eram seus pais. Sorridentes e com seus olhares tenros, estavam ali, completamente reais na frente dela. Há quanto tempo não os via? Fazia mais de década que já tinham partido, deixando um legado de muita saudade.

Foi uma alegria incomum. Sentia-se como uma menina que chega da escola com novidades para contar. Mamãe abraçou meus avós demoradamente, com lágrima nos olhos inevitáveis. Estava muito emocionada com este reencontro e esse sentimento suplantava qualquer incredulidade que eventualmente houvesse. Ela se entregou de corpo, alma e bagagem àquele amanhecer. Conversou animadamente, tendo contado os sucessos das crianças, agora adultos, a aparição dos netos, sua aposentadoria, e as coisas outras da vida. Um bate-papo que conseguia ser leve e intenso ao mesmo tempo, no qual a própria vida é a protagonista. A vida, essa nossa vidinha comum, sempre nos emociona quando vista com olhos de ver.

Foi quando surgiu a ideia do café. Aquela família que ali conversava, pais e filhos, eram letrados e versados em café. Desde as priscas eras, lá da primeira metade do século XX, o café era um parente amigo. Era hora de celebrar aquela alegria de ter quem se ama por perto com uma xícara e um pãozinho crocantemente quentinho. Era hora do café. Mamãe partiu para a cozinha para providenciar o tal elixir negro do afeto, caprichando na sua preparação. Arrumou a bandejinha coberta com um paninho bem bonito, dispôs as xícaras, a garrafa térmica os pães, a manteiga, a geleia de morango, uns biscoitinhos. Estava tudo amorosamente lindo. Com a efemeridade de uma bolha de sabão, majestosa e imponente, a flutuar solene pelo ar, o encontro da mamãe com meus falecidos avós também desapareceu.

Voltando com a bandejinha do afeto nas mãos, ela encontrou a sala vazia, como vazia era na maior parte do tempo. Vovô e Vovó não estavam mais lá para o cafezinho prometido. Desapareceram. Embora muito confusa e um tanto desapontada, minha mãe não deu tudo por perdido. Rezou uma ave-maria em devoção ao amor que sentiu naqueles instantes tão caudalosos que seu coração experimentou. E, ao me contar o ocorrido, tinha novamente os olhos cheios, e uma incontida angústia de saber o que pensar daquilo tudo, se era real ou não, se estariam ali ou ela havia imaginado tudo. Deliberadamente decidi não duvidar da história. Há coisas ricas demais para serem objeto de verificação. Não quis me render à mesquinhez da lógica racional. Apenas acariciei o rosto da minha mãe, velhinha, que tanto beijei na minha infância, lembrando aqueles tantos cafezinhos de amor que eu havia sorvido até a maturidade. Naquele instante, os olhos marejados daquela mulher que coloriu minha existência me fitavam a esperar uma resposta e eu senti a responsabilidade de dar continuidade ao carinho que ela levara naquela bandeja de café, que pretendia servir aos meus aparecidos avós.

Meu desafio era manter o afeto como o especial condimento daquelas coisinhas gostosas que iriam comer.
Pois foi o que me veio à mente. Olhando para aqueles olhos confusos da minha mãe, me ocorreu dizer apenas para ela que as coisas boas da nossa vida sempre são verdadeiras. Tudo o que nos desperta amor é concreto. Tudo que mata a nossa saudade vem de Deus. O resto não conheço e nem quero conhecer. Dito isto, fomos tomar o nosso café quentinho.

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